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“A Memória Infinita”: Indicado ao Oscar, documentário destaca importância da preservação da memória individual e coletiva | 2024

“a cadela do fascismo está sempre no cio” - Bertolt Brecht.

A memória é um processo de construção de sentido. Diferente do que se pensava antigamente, não se reconstitui a história apenas através da obtenção de dados ou a compreensão de fatos objetivos. Trata-se de um trabalho coletivo muito mais amplo e subjetivo. Fatos somados a interpretação contemporânea elaboram uma “memória social”. Na América Latina, as feridas provocadas pelas ditaduras persistem até hoje. A maneira como essa memória é abordada (ou negligenciada) pode ter implicações profundas e pavimentar caminhos perigosos.

O Brasil, e mais recentemente, a Argentina surgem como tristes exemplos dessa tragédia. Já o Chile se sobressai como um país que aborda de forma exemplar essa problemática, especialmente nos filmes que com frequência representam o país no exterior. Pablo Larraín, principal cineasta chileno da atualidade, forjou sua carreira centrando-se nos anos de chumbo da ditadura.

“A Memória Infinita” surge como uma importante contribuição a esse vasto memorial histórico. Para além de sua importância política e social, o filme entrelaça uma narrativa comovente ao explorar a trajetória de amor entre Paulina Urrutia, ex-ministra do Conselho Nacional da Cultura e das Artes, e Augusto Góngora, um jornalista veterano diagnosticado com Alzheimer.

O documentário começa com uma atmosfera caseira e íntima, já com a primeira cena ambientada na cama do casal. Com a câmera desfocada, o diálogo é doce e comovente, tom este que será uma constante em toda a narrativa. Esse ambiente familiar se alterna com imagens de arquivo, revelando aos poucos a trajetória política e pessoal dos protagonistas. Destaca-se a atuação de Augusto como jornalista e ativista pró-democracia durante a ditadura, dando enfoque em suas contribuições na mídia através de discursos, entrevistas e reportagens, além de seu envolvimento nas artes, incluindo a escrita de livros e a participação inusitada em um filme.

Quando no presente, o filme se desenrola quase inteiramente na residência do casal, local que adquire uma carga emocional ao revelar que cada detalhe do espaço foi meticulosamente planejado como o lar que compartilhariam ao longo de suas vidas. Notavelmente, o desenvolvimento não cede ao sentimentalismo, mesmo ao abordar temas tão sensíveis. A trilha sonora não é invasiva, nas interações evitam-se closes excessivos, optando por enquadramentos abertos e arejados. O objetivo não é provocar lágrimas, mas sim captar a atenção, conscientizar e alertar.

“A Memória Infinita” pode ser interpretado como um filme denúncia contra o esquecimento e o apagamento da história. A repressão gera regressão e a luta contra esse mal, travada por Augusto e Paulina, é apresentada com amor e espiritualidade, sentimentos essenciais em tempos difíceis.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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