“Pequenas Coisas Como Estas”: Cillian Murphy brilha em trama sensível sobre as “mulheres caídas” | 2025

Quantos não foram as atrocidades cometidas pela Igreja Católica em nome de Deus ou em nome dos bons costumes, de uma moral torta criada e imposta pelos homens, invariavelmente hipócritas e vingativos. O longa baseado no romance homônimo da escritora Claire Keegan, presente na lista de 100 Melhores Livros do Século XXI do The New York Times, traz uma dessas histórias sombrias de punição de pecados. As “Lavanderias de Madalena” foram instituições na Irlanda administradas pela Igreja para reeducar “mulheres caídas”, grávidas de homens casados, que haviam perdido a “inocência” antes do casamento, prostitutas ou abusadas; no entanto esses lugares viraram cárceres onde essas mulheres eram exploradas e torturadas.
Bill Furlong é um comerciante de carvão na pacata cidade de New Ross, Irlanda, na década de 80. Sua rotina é simples e entediante, acordar de madrugada, fazer entregas, ir pra casa à noite, jantar, dormir e começar tudo novamente. Ele, a esposa e cinco filhas vivem com o dinheiro curto, porém não passam fome e as meninas tem os estudos garantidos no colégio de freiras. Até que um dia Bill se depara com os segredos do convento, que a cidade toda finge não conhecer devido ao poder da Igreja, e a pouca paz de espírito que ele tinha acaba.
As atuações de todo o elenco são brilhantes, sóbrias como pede a história, mas emocionantes em sua profundidade. O vencedor do Oscar de Melhor Ator por “Oppenheimer”, Cillian Murphy, vive a figura central Bill, um homem fechado que, em longos silêncios expressa sua angústia de pai zeloso e cidadão empático com o sofrimento ao seu redor. Emily Watson faz uma participação rápida mas poderosa como a Irmã Mary, a Madre Superiora do convento, ela é fria e irredutível quanto ao tratamento dado às “mulheres caídas”, representando o domínio da Igreja sobre tantas comunidades ao redor do mundo e que, sob o manto da fé, perpetuaram tantas crueldades.
O longa tem a direção sensível de Tim Mielants, que optou por não fazer da narrativa uma denúncia dos horrores cometidos nessas lavanderias. A tortura e o trabalho escravo não são mostrados de forma explícita, o foco são o drama das moças e o dilema moral de Bill, seu tormento ao descobrir o segredo que a cidade toda finge não existir, trazendo à tona cicatrizes profundas da sua infância pobre e o deixando entre valores que lhes são caros, como família, sua fé e a religião.
A bela fotografia é em tons de cinza, destacando a melancolia da cidade gélida, nebulosa e a opressão do convento, somos sugados por essa atmosfera sombria e pelo desamparo em que todos se encontram. Os pequenos detalhes da trama merecem atenção pois tem bastante significado: as muitas cenas de Bill lavando as mãos meticulosamente, como se quisesse lavar seus pecados; os flashbacks do Natal em que ele não ganhou o sonhado quebra-cabeças, ou os vislumbres das moças torturadas.
A história peca por não ter um olhar feminino para mostrar o lado das milhares de mulheres que sofreram por tantos anos; o ponto de vista é do protagonista que, por ter cinco filhas, imagina como seria se fosse uma delas sendo punida no calabouço escuro. Bill vive um dilema moral intransponível: ajudar as vítimas denunciando suas algozes ou continuar em silêncio, afinal, os estudos de sua prole é garantido pelas freiras. No entanto, essa perspectiva não desmerece em nada o filme, que é belo e perturbador ao nos fazer mergulhar nas trevas das “lavanderias”, porém com um alerta esperançoso para que não se repitam jamais.