“O Macaco”: subvertendo expectativas, longa faz uma engenhosa mistura de ironia e escatologia | 2025

Dirigido por Oz Perkins, responsável pelo recente “Longlegs”, baseado em uma obra de mesmo nome do escritor Stephen King, e produzido por James Wan, figura chave por trás das franquias “Sobrenatural”, “Jogos Mortais” e “Invocação do Mal”, “O Macaco” atraiu atenções antes mesmo de seu lançamento, graças ao envolvimento desses grandes nomes do gênero. No entanto, aqui reside uma ironia intrigante: apesar dos gigantes da indústria do horror por trás dele, “O Macaco” desvia-se do convencional, pendendo mais para a comédia do que qualquer outro gênero. Certamente, elementos de horror permeiam o filme, mas eles são aplicados com uma dose irônica, visando subverter as expectativas do público. Essa subversão vai além do mero alívio cômico; o humor não é episódico na narrativa, mas sim o motor que impulsiona toda a trama.
Na trama acompanhamos Hal e Bill (Christian Convery), dois irmãos gêmeos que, ainda jovens, encontram um enigmático macaco de corda. Logo após a descoberta, uma sequência de mortes grotescas e aleatórias começa a ocorrer, até que eles percebem a conexão desses eventos bizarros com a sinistra figura do macaco e decidem se desfazer dele. Vinte e cinco anos mais tarde, já adultos, os irmãos (agora interpretados por Theo James) se veem confrontados pelo ressurgimento dessa antiga ameaça. Agora, eles devem superar suas divergências para eliminar a maldição de uma vez por todas.
Antes de tudo, é crucial que nossa apreciação de uma obra seja alinhada ao que ela se propõe, o que se torna especialmente desafiador quando um projeto é fundamentado na quebra de expectativas. Esse desafio é intensificado pelo público contemporâneo, acostumado a consumir conteúdo sob demanda, frequentemente recebendo exatamente o que espera. Aparentemente, Oz Perkins opta por entregar uma dose robusta de sarcasmo e, desde o primeiro minuto, abandona qualquer pretensão de sutileza. Em “O Macaco”, a mensagem é clara e explícita, como um alerta em neon: “não me levem a sério”.
A comédia em “O Macaco” se afasta do tradicional uso de trocadilhos e deboches verbais, explorando, ao invés disso, as potencialidades da linguagem audiovisual. O filme se destaca especialmente na edição, com cortes bruscos que transitam entre sequências de maneira imprevisível, como a transição abrupta de uma cabeça decepada ao som solene de um órgão de igreja. As reações caricatas de figuras de autoridade, incluindo um policial que emite obviedades, um pároco com discursos pouco convencionais, ou uma mãe solo oferecendo conselhos atípicos, contribuem para a atmosfera altamente absurdista. Neste universo, até a figura macabra central — um macaco de corda — é imbuida de absurdismo. A origem do macaco e as consequências mortais do tocar de seu tambor são apresentadas sem qualquer preocupação com a lógica narrativa, focando-se na performance e no impacto visual. O enredo, secundário, serve como veículo para encadear cenas cada vez mais grotescas e escatológicas, elevando o absurdo a novos patamares.
É claro que o cinema tem o poder de ecoar discursos e fomentar debates, porém essa é apenas uma das suas facetas. Em “O Macaco”, a narrativa inicialmente nos apresenta uma mãe solteira com dois filhos, abandonada pelo marido, mas fica evidente que o filme não se debruça sobre as lutas da maternidade solo. Na segunda parte, um dos irmãos enfrenta um distanciamento do próprio filho, no entanto, a questão da paternidade não é o foco. Mesmo à medida que a maldição se intensifica, provocando uma insensibilidade coletiva diante de assassinatos cada vez mais banalizados, o filme evita transformar-se em um comentário sobre epidemias de descontrole social. Às vezes, o propósito não está ancorado no hoje, no ontem ou no amanhã; às vezes, ele simplesmente transcende qualquer significado específico, deixando espaço para a interação puramente sensorial do espectador.
O apelo de “O Macaco” não está em “desligar o cérebro”, uma expressão tão vazia quanto simplista. Aqui, a forma sublinha que o suposto significado muitas vezes pode ser só vazio, e tudo bem. Com essa perspectiva em mente, prepare-se para a jornada seguindo as recomendações: ajuste o cinto, tome um omeprazol e boa viagem.