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“Maré Alta”: com atuação marcante de Marco Pigossi, longa aborda temas relevantes com sensibilidade e sutileza l 2025

Um dos reflexos do bom momento do cinema nacional é sua crescente projeção internacional, que vai além do sucesso de “Ainda Estou Aqui” e se estende à visibilidade individual de talentos brasileiros. Nomes como Wagner Moura, Rodrigo Santoro e Alice Braga já se consolidaram no cenário global, enquanto Fernanda Torres estampa capas das principais revistas do mundo e, provavelmente, acumula convites para novos projetos. Antes da retomada do cinema nos anos 90, Sônia Braga já havia pavimentado esse caminho com uma trajetória brilhante em Hollywood. Agora, em “Maré Alta”, produção norte-americana dirigida pelo italiano Marco Calvani, Marco Pigossi reafirma essa tradição ao assumir, pela primeira vez, um protagonismo em língua inglesa. Mesmo não sendo ele um novato no mercado internacional, este projeto marca um novo patamar em sua carreira.

A trama acompanha Lourenço (Marco Pigossi), um imigrante brasileiro que se muda para os Estados Unidos buscando se distanciar de um contexto familiar conturbado. No entanto, ele se vê abandonado pelo namorado, com o visto prestes a expirar e sem perspectivas de futuro. Em meio à incerteza, cruza o caminho de Maurice (James Bland), um enfermeiro charmoso e gentil. Juntos, embarcam em uma jornada de autodescoberta e aceitação, tentando encontrar sentido para seus destinos incertos.

O protagonismo de Lourenço é tão absoluto que todo o entorno se configura como um instrumento narrativo para conduzir sua trajetória, tanto emocional quanto espiritual. Essa abordagem, ainda que por vezes exija certa simplificação, se revela eficaz na construção da dinâmica do filme. O longa se destaca pela fluidez e pela precisão na síntese, tornando seus 100 minutos uma experiência envolvente, mesmo nos momentos de maior carga emocional. Esse equilíbrio é, aliás, uma das marcas de Marco Calvani, que evita oscilações bruscas de humor ou explosões dramáticas. O conflito emocional de Lourenço está sempre latente, mas o filme opta por construir esse turbilhão gradualmente, contextualizando seu estado atual e adicionando, aos poucos, elementos que intensificam sua inquietação. O resultado é uma atuação repleta de nuances por parte de Pigossi, que alterna entre um olhar perdido e um andar hesitante, contrastando com os momentos de conexão com Maurice e seu grupo, quando seu corpo ganha mais presença e vigor. De todo modo, mesmo nessas interações, há sutileza na forma como a narrativa sugere que essa vitalidade será, eventualmente, permeada por tons de melancolia.

A temática LGBTQIAP+, como era de se esperar em um filme que preza pela síntese narrativa, é abordada de maneira direta, sem rodeios. O discurso não se dilui em subtextos, trazendo inclusive críticas à própria comunidade. Um exemplo disso ocorre quando um advogado, amigo de um amigo, se oferece para ajudar Lourenço, mas sua suposta assistência se revela vazia, restrita ao discurso. Na cena seguinte, o mesmo personagem surge em uma conversa trivial sobre questões abstratas, ignorando completamente a urgência do problema material do protagonista. A oposição entre retórica e prática é colocada em debate de forma ao mesmo tempo sutil e incisiva. Questões de raça e precarização do trabalho também aparecem, ainda que de maneira secundária, assim como a presença de Marisa Tomei. Uma atriz do seu calibre certamente poderia ter sido melhor aproveitada.

Em suma, “Maré Alta” se sustenta na força de seu protagonista e na abordagem intimista de sua jornada, explorando com sensibilidade os dilemas da imigração, pertencimento e identidade. Sem grandes pretensões, o filme aposta em uma narrativa contida que, embora não aprofunde todas as questões que aborda, compensa suas limitações com um recorte preciso e bem conduzido.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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