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“Até o Cair da Noite”: Um neo-noir alemão que transborda o estilo do mestre Fassbinder | 2024

“Eu amo. Eu amo muito. Mas eu amo o homem.”

É inegável a influência de Rainer Werner Fassbinder na cultura alemã nas últimas quatro décadas. Um dos expoentes do Novo Cinema feito naquele país, ele destacou-se de seus contemporâneos – entre os quais encontram-se nomes como Wim Wenders e Werner Herzog – por trazer para dentro de suas narrativas banhadas pelo melodrama um olhar bastante pessoal para temáticas cruciais da comunidade LGBTQIA+. Profícuo e provocador, o realizador assinou 44 filmes num período de 16 anos, até sua morte precoce em 1982, quando contava apenas 37 anos. Dono de uma história tão intensa e trágica quanto a de seus personagens extremamente humanos, a aura de Fassbinder pode ser sentida em cada fotograma de “Até o Cair da Noite”, de Christoph Hochhäusler.

Em suas primeiras imagens, vemos fusões que mostram a passagem de tempo durante a reforma de um apartamento. A canção romântica que toca ao fundo sugere a chegada de um casal, o que de fato acontece. Mas, aos poucos, vamos percebendo que o lugar nada mais é do que uma espécie de cenário para uma relação amorosa forjada pela polícia. Após cumprir um ano de prisão por tráfico de drogas, a aspirante a cantora Leni (Thea Ehre) precisará restabelecer sua conexão com um criminoso que expandiu suas ações para a internet e, dessa forma, conquistar definitivamente sua liberdade. Para isso, ela, uma mulher trans, deverá voltar a se relacionar com Robert (Timocin Ziegler), policial designado para o caso, com quem já havia vivido uma intensa paixão bem antes do início da transição.

Os elementos rocambolescos do melodrama, repleto de sentimentos controversos represados, misturam-se aqui à cartilha do noir. O clichê do “infiltrado” agora serve para que o perigo da descoberta estabeleça o suspense à medida que o misto de tesão e rancor que há entre os protagonistas ganhe, nesse teatro em que vida e morte se entrelaçam, um novo palco para um tenso acerto de contas. Os espelhamentos criados pela fotografia de Reinhold Vorschneider, que abusa dos planos com vidraças, parecem indicar muitos segredos e a consequente impossibilidade de um contato real, algo que fica bem evidente numa tórrida (e inusitada) cena sexo.

Os travellings são quase sempre muito suaves, conferindo ao filme uma elegância que se complementa com a forma como os tons de vermelho e roxo – bem ao gosto de Fassbinder – imprimem na tela uma atmosfera que mescla elementos visuais dos anos 1970 e 1980, como, por exemplo, pode-se observar de imediato na caracterização de Leni, uma surpreendente ressignificação do arquétipo da femme fatale.

Repleto de símbolos que apontam para o quanto paixão e frustração formam as faces melancólicas (por vezes, trágicas) de uma mesma moeda, sem medo de resvalar no que se convencionou chamar de cafona, “Até o Cair da Noite” falha apenas na criação de uma verdadeira sensação de perigo iminente para seus protagonistas, já que a ameaça é representada por um esquema com ares de máfia que pouco convence. Sua força reside mesmo é na dinâmica entre Leni e Robert, dois amantes que se beijam usando máscaras, com interesses conflitantes que solapam seus desejos e com muita mágoa a se investigar. Diante desse turbilhão, o amor acaba mesmo se tornando mais frio que uma cela.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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