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“Antonio Candido: Anotações finais”: Doc esmiúça os escritos derradeiros de um dos maiores intelectuais brasileiros do último século | 2024

“Uma das coisas boas é reduzir a vida às palavras. Elas podem ser uma espécie de sobrevida.”

Antonio Candido foi um dos intelectuais brasileiros de maior destaque no último século. Sua atuação no campo da crítica literária, associando-a de forma indelével de seu aspecto sociológico, assim como a contribuição política dentro dos principais movimentos de esquerda a partir de 1945 fazem dele uma das personalidades mais representativas a pensar na ideia – ainda distante – de um País menos desigual e com ampla oferta de sua vasta cultura. Fora os livros que mudaram definitivamente a maneira de se estudar as obras de nossos maiores autores, Candido deixou dezenas de cadernos nos quais rabiscava impressões sobre os mais diversos assuntos de seu interesse e reflexões sobre a própria vida. E são justamente os dois últimos pequenos volumes desse inestimável tesouro que servem de base para “Antonio Candido – Anotações finais”, documentário que chegou nesta quinta-feira aos cinemas.

Dirigido por Eduardo Escorel, o longa se propõe a adentrar, através desses escritos, tanto naquilo que o personagem central tem a oferecer enquanto profundo conhecedor da realidade brasileira como também nas suas mais recônditas angústias pessoais. Nesse intuito, à medida que a leitura dos textos ganha peso com a sobriedade imposta pela narração de Matheus Nachtergaele, a câmera de Escorel percorre os cômodos do apartamento localizado em São Paulo, onde Candido morou até o seu falecimento em 2017. Aliado a isso, vemos imagens de arquivo que ilustram os pensamentos declamados e trechos de entrevistas que ajudam a traçar o perfil de um homem que se manteve lúcido e com pertinência até os seus 98 anos de idade.

É nítido como o roteiro e a montagem buscam manter a alternância temática encontrada nos cadernos. Dessa forma, a narrativa salta de reflexões sobre a história de nossa formação como  povo do sul global para, depois, destrinchar a conturbada situação política daquele momento – deixando evidente sua preocupação com os rumos do País após o impedimento de Dilma Roussef –, além de tratar de tópicos mais íntimos como suas epifanias literárias, a deterioração de seu corpo na velhice, a proximidade da morte e, claro, histórias familiares, sobretudo as que expõem de modo tocante uma profunda tristeza pelos anos vividos na ausência da esposa Gilda, falecida em 2005.

Figura ímpar no cenário cultural brasileiro, Antonio Candido se destacou por congregar em cada verbo publicado erudição e consciência social. Por isso, o autor de obras seminais como “Formação da Literatura Brasileira” e “Educação pela Noite” seguirá como referência para aqueles que desejam apreciar as múltiplas possibilidades de uma literatura riquíssima como a nossa e, através dela, pensar um Brasil mais justo, que não abra mão de  um futuro mais igualitário em nome de uma distorcida noção de liberdade. Felizmente, o documentário de Lauro Escorel equaliza criação e memória para reverberar as anotações de um mestre que, esperemos, jamais encontrem um fim.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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