“Uma Família Feliz”: Longa leva ao grande público o potencial do cinema de gênero no Brasil | 2024

Na construção do mistério, a disposição do quebra-cabeça é crucial, pois a ordem e o ritmo das peças entregues mantêm o suspense. Qualquer deslize pode arruinar a surpresa, tornando a resolução previsível. Alguns filmes conseguem se sustentar sem surpresas, utilizando a “ironia narrativa”, na qual o público tem informações que o personagem desconhece. “Uma Família Feliz”, porém, não segue essa abordagem. Seu desenvolvimento e a crescente tensão até o clímax estimulam o envolvimento do público e promovem a criação de teorias durante os eventos. No entanto, após o impacto da conclusão, as fragilidades do roteiro ficam mais perceptíveis, diminuindo o potencial, embora o saldo final permaneça bastante positivo.
Na trama acompanhamos Eva (Grazi Massafera) e sua família aparentemente perfeita. Grávida do terceiro filho e levando uma vida típica da classe média paulistana, sua paz é abruptamente interrompida por eventos misteriosos quando as filhas gêmeas surgem com ferimentos inexplicáveis. Eva, então, se vê injustamente acusada pela comunidade. Enfrentando o isolamento e o questionamento até mesmo por parte de seu próprio marido (Reynaldo Gianecchini), ela precisa reunir forças para provar sua inocência.
Baseado no livro homônimo escrito por Raphael Montes, que também assina o roteiro, “Uma Família Feliz” aborda temas comuns do horror e suspense. Um reflexo da carreira do autor, que nos seus diversos livros se dedicou inteiramente ao gênero e hoje tem grande popularidade entre os leitores. O filme se ambienta majoritariamente no interior de uma casa ampla, confortável, bem arejada e iluminada, contrastando com a atmosfera de tensão trabalhada pelos enquadramentos fechados, close-ups e planos detalhes. A ausência de cantos escuros, artifício comum em filmes desse tipo, é compensada pela dúvida gerada por pequenos gestos, como as mãos do pai em uma brincadeira com as filhas ou o olhar de Eva ao inserir uma cabeça de boneca no forno, algo necessário em seu ofício de criação (ela trabalha na confecção de bonecas hiper-realistas), mas que também gera desconfiança pela contradição e simbolismo que essa cena evoca.
A influência da comunidade é evidente, especialmente quando Eva se torna alvo do cruel cancelamento público. O desaparecimento de uma personagem do passado levanta questões sobre sua possível ligação com o mal presente. Dessa forma, o filme introduz novas camadas ao longo da trama, mantendo o espectador envolvido em dúvidas até a revelação, que, embora abrupta e um tanto expositiva, não deixa de ser impactante.
Com a falta de representatividade do cinema de gênero no Brasil, o brilhantismo de Belmonte, juntamente com a visibilidade de Reynaldo Gianecchini e Grazi Massafera, pode representar um ponto de partida para uma maior diversificação do nosso audiovisual, especialmente em termos de ampla distribuição. O nosso cinema é rico. Sempre foi. Está na hora do grande público saber disso.