⚠️ VEJA OUTRAS CRITICAS DO PAPO EM NOSSO ACERVO (SITE ANTIGO).

ACESSAR SITE ANTIGO
PitacO do PapO

“Um Completo Desconhecido”: cinebiografia de Bob Dylan eleva a potência com atuações memoráveis de Chalamet, Norton e Barbaro | 2025

Baseado no livro do autor Elijah Wald, “Dylan Goes Eletric”, “Um Completo Desconhecido” foca nos anos iniciais da carreira de Dylan quando ele se muda para Nova Iorque no início dos anos 60. Com a meta de conhecer seu ídolo maior, Woody Guthrie (Scoot McNairy), compositor folk americano que passava por dificuldades de saúde e estava mudo. Dylan tem a oportunidade de tocar no hospital uma música autoral feita em homenagem a Guthrie e lá conhece seu melhor amigo, Pete Seeger (Edward Norton), outro expoente da música folk norte-americana. Um laço que se mostra fundamental na carreira de Dylan.

O filme dirigido por James Mangold (“Johnny & June”) é uma colcha de retalhos de encontros e desencontros de Bob Dylan com músicos que o influenciaram e suas paixões aqui representadas pela semi-fictícia Sylvie Russo (Elle Fanning) e a célebre Joan Baez (Monica Barbaro). É notório o trabalho vocal que a atriz Monica Barbaro realiza ao interpretar pessoalmente as canções magnéticas de Baez com sua voz delicada e potente. O mesmo pode ser dito do esforço de Chalamet de não só interpretar as canções de Bob Dylan reproduzindo o timbre e o estilo vocal, mas também os maneirismos que ele vai adotando à medida que o filme avança e Dylan se torna esta figura enigmática e outsider que conhecemos hoje em dia com seu indefectivel cabelo despenteado e oculos escuros.

Números musicais como “Blowin’ In the Wind”, “The Times They Are A-Changin” ou “Like a Rolling Stone” ganham destaques disruptivos na cinebiografia e representam bem as quebras de paradigma no trabalho de Dylan, seja quando abraça a música folk raiz de protesto com o violão acústico ou quando adota o Rock da guitarra elétrica em suas músicas, o que faz os fãs se revoltarem em uma ótima cena tensa e ao mesmo tempo divertida no Festival de Newport Folk Festival de 1965.

É interessante também notar que o roteiro não alivia a imagem de Bob Dyan, que é pintado como uma figura inicialmente doce e humilde e que ganha contornos de falha de caráter ao sempre usar seus relacionamentos amorosos pelas conveniências advindas deles ou usufruir das plataformas musicais que o amigo Pete Seeger oferecia para ele, para logo em seguida descartá-lo. Mais curioso ainda é que o próprio Bob Dylan deu sua bênção para esta representação de sua persona no filme, algo raro inclusive, vide casos de cinebiografias “chapa branca” que amenizam os desvios dos artistas como a de Whitney Houston ou de Amy Winehouse. Em certo momento, Baez fala para Dylan: “Eu acho que você é uma espécie de cretino, Bob” e ele responde prontamente: “Eu acho que sim”.

A conexão musical entre Baez e Dylan é um dos pontos altos do filme, ao colocar no palco a tradução de sintonia que também se revertia em uma relação amorosa espinhenta e altamente inflamável nas suas intimidades. Toda cena em que Barbaro aparece, ela eleva o nível do filme, seja com seu desempenho musical ou sua performance forte e magnética como símbolo do folk feminino.

Assim como Chalamet e Barbaro entregam atuações incríveis, Norton também desaparece no papel de Pete Seeger, seja com sua caracterização física e uso de próteses, como também com a cadência da fala e do sotaque bastante peculiar do músico. Seeger é autor de hits sessentistas célebres como: “Where Have all the Flower Gone?”, “If I had a hammer” e “Turn! Turn! Turn!”.

“Um Completo Desconhecido” foi laureado com 8 indicações ao Oscar, incluindo para seu elenco nas categorias principais e para Melhor Filme. É um ótimo exemplo de como construir uma narrativa de alguém ainda tão presente no nosso imaginário POP coletivo de forma interessante e com frescor. Mangold sabe muito bem transitar na zona de autobiografados, como fez com “Johnny & June” (2005), e no ótimo “Ford vs Ferrari” (2019). Neste novo trabalho, ele ainda mantém a barra lá em cima.

Marcello Azolino

Advogado brasiliense, cinéfilo e Profissional da indústria farmacêutica que habita São Paulo há 8 anos. Criou em 2021 a página @pilulasdecinema para dar voz ao crítico de cinema e escritor adormecido nele. Seus outros hobbies incluem viagens pelo mundo, escrever roteiros e curtir bandas dos anos 80 como Tears For fears, Duran Duran e Simply Red.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo