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“Sidonie no Japão”: Isabelle Huppert vive escritora enlutada em choque com a cultura japonesa e com fantasmas do passado | 2024

É sempre um deleite acompanhar os filmes estrelados pela musa do cinema francês Isabelle Huppert. Mesmo em obras fracas como “A Câmera de Claire” (2017), ela é capaz de roubar a cena e entregar atuações cheias de camadas que ora flertam com a introspecção ou com o perturbador, vide em filmes aclamados como “Elle” (2016) ou o mais poderoso de todos, “A Professora de Piano” (2001). Desta vez, Huppert mergulha na história de uma escritora francesa, Sidonie Perceval, que vai ao Japão para uma turnê de lançamento e autógrafo de sua mais nova obra. Ela conta com o suporte de seu editor local, Kenzo Mizoguchi (Tsuyoshi Ihara), que opera como tradutor, companheiro de viagem e cicerone da cultura japonesa ao longo da visita por diversas cidades.

Sidonie vem de um histórico de tragédias, além de ter perdido seus pais em um acidente fatal, ela também perdeu o marido em um acidente de carro em que só ela sobreviveu. O luto pauta esse momento da escritora e o fato da história dramática de Kenzo cruzar o seu caminho, seus familiares morreram em Hiroshima após a bomba nuclear,  e isso deixa a relação entre os dois mais interessante e mais complexa frente à fragilidade de ambos após eventos tão dolorosos. E é o tipo de papel que Huppert deita e rola, já que permite que a atriz oscile entre o drama intenso, humor e perturbação apenas com um olhar ou algum gesto que realize em cena.

A escritora também é assombrada pelo fantasma de seu marido, materializado na interpretação contida e bem humorada do ator alemão August Diehl. Sidonie está tão apegada à dependência emocional que tem pelo marido, que o mesmo perambula com ela como uma alma penada nos quartos de hotel minúsculos japoneses. A estrutura da obra basicamente foca nos diálogos entre Sidonie e Kenzo, que expõem o choque cultural de hábitos franceses e japoneses, bem como discussões interessantíssimas sobre a morte e sobre a aceitação de desapegar de entes queridos quando estes partem desta vida.

A direção e o roteiro de Elise Girard garantem belos momentos de contemplação e um ritmo vagaroso que pode incomodar o espectador acostumado com narrativas mais vibrantes. Mas graças à dinâmica estabelecida por Huppert e o ator Tsuyoshi Ihara, mais conhecido pelo filme “Cartas para Iwo Jima” (2006), o filme se ancora na evolução de ambos os personagens em suas jornadas internas de superação do luto. A relação estabelecida pelos dois é reflexo do processo de amadurecimento que os dois enfrentam nesta “road trip” com o subtexto de espantar fantasmas do passado.

Pode-se traçar paralelo com outro filme que também explora muito bem choques culturais, linguísticos e a sensação de ser um “outsider” em uma sociedade, o celebrado “Encontros e Desencontros” (2003) da diretora Sofia Coppola. Não que “Sidonie no Japão” se compare ao cult bem sucedido da Coppola, mas pertence a esta classe de filmes que nos propõe uma imersão em histórias de deslocamento cultural simultaneamente com revoluções internas que as personagens principais passam em ambos os longas.

Pode não ser o filme mais memorável do ano, mas é uma delicada história entre duas pessoas de contextos dispares que aprendem a curar um ao outro da maneira mais sutil possível. Em tempos de filmes literais que escancaram e esmiúçam todo e qualquer sentimento ou diálogo, “Sidonie no Japão” é um respiro da sutileza e da sugestão.

Marcello Azolino

Advogado brasiliense, cinéfilo e Profissional da indústria farmacêutica que habita São Paulo há 8 anos. Criou em 2021 a página @pilulasdecinema para dar voz ao crítico de cinema e escritor adormecido nele. Seus outros hobbies incluem viagens pelo mundo, escrever roteiros e curtir bandas dos anos 80 como Tears For fears, Duran Duran e Simply Red.

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