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“Os Sapos” : longa estrelado por Thalita Carauta mergulha no pântano dos relacionamentos abusivos | 2025

Filmes baseados em que peças que abordam o desmoronar de relacionamentos não chega a ser novidade. Podemos citar, só para ficar com exemplos separados por um longo período, obras realizadas por grandes cineastas como Mike Nichols e Roman Polanski que, respectivamente, levaram às telas os diálogos poderosos de “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf” e “O Deus da Carnificina”. No cinema brasileiro, entretanto, a transposição para a linguagem audiovisual de encenações teatrais com essa temática não chega a ser algo comum. Portanto, não deixa de trazer ares de novidade a intenção de Clara Linhart de utilizar a peça homônima de  Renata Mizrahi para servir como base de seu primeiro trabalho solo no comando de longas de ficção.

Calcado no texto de Mizrahi, a trama vai nos apresentar, a princípio, Paula (Thalita Carauta), uma mulher que é convidada para um fim de semana numa região isolada cercada por cachoeiras, onde seria realizado um churrasco de reencontro com amigos dos tempos de escola. Chegando no local, ela vai descobrir que o evento foi cancelado e que, na verdade, a casa está ocupada apenas por Marcelo (Pierre Santos), uma antiga paquera da adolescência, e sua namorada Luciana (Karina Ramil). Desde os primeiros minutos, a dinâmica entre os personagens deixa no ar um certo embaraço por conta da situação, sobretudo pelo fato de Luciana não conseguir esconder o ciúme que surge com o entusiasmo de Marcelo diante da “intrusa”. E a suposta tranquilidade que aquele cenário bucólico poderia oferecer fica ainda mais instável quando outro casal, Cláudio (Paulo Hamilton) e Fabiana (Verônica Reis), se juntam ao grupo para uma daquelas noites em que tudo parece estar prestes a ruir.

O clima de desconforto que vai pouco a pouco emergindo na trama de “Os Sapos” provém principalmente das relações abusivas que refletem a toxicidade de suas figuras masculinas. Enquanto Marcelo aproveita qualquer oportunidade para flertar com Paula, a despeito dos sentimentos de Luciana, Cláudio esconde por trás da imagem de músico boa praça seu caráter dominador e infiel. O título por si só já metaforiza – há, inclusive, uma ótima piada com essa figura de linguagem em dado momento – o incômodo que aquelas presenças vão gerando umas nas outras, algo que o trabalho de som faz questão de pontuar com o constante coaxar dos animais ao fundo na maioria das cenas.

É possível observar na forma de filmar impressa por Clara Linhart, com o auxílio da diretora de fotografia Andrea Capella, que “Os Sapos” sugere, além das referências apontadas no início desse texto, certa inspiração nas comédias dramáticas de Eric Rohmer, sobretudo na criação de um enredo à primeira vista simples, num tom que beira o prosaico, e que vai se tornando aos poucos uma instigante provocação sobre as contradições do ser humano, sempre tendo que lidar com desejos que não encontram espelhamento no outro.   Talvez seja na busca pela composição de quadros que representem uma falsa conexão entre a paisagem harmoniosa e pessoas conflitantes, Clara opte quase sempre, tal qual o mestre francês, por planos gerais numa decupagem mais contida. E a realizadora só não atinge um resultado ainda mais satisfatório por conta do trabalho um tanto irregular no que concerne à direção dos atores, dentre os quais se destaca uma Thalita Carauta capaz de saltar com muita maturidade por diferentes pântanos emocionais.

A longa jornada noite adentro proposta em “Os Sapos” alia humor e tensão na medida certa, formando uma tragicomédia perspicaz que aborda temas importantes como gaslighting e sororidade de maneira bastante sóbria, na qual estruturas arcaicas (como paradisíacas casas no campo) podem até sofrer algum abalo, mas, infelizmente, seus pilares seguem impedindo que o teto desabe sobre as cabeças dos verdadeiros bichos asquerosos que as habitam.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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