“O Poço 2”: Sequência do sucesso de 2020, longa adota discurso distinto, mas pouco original | 2024

“O Poço”, produção espanhola de 2020, surpreendeu a todos não apenas por sua problemática instigante, mas também pela forma direta como dialogou com a situação emergente na época. Em março daquele ano, a pandemia de COVID-19 começava a dar sinais de que abalaria o mundo, e o filme se tornou uma alegoria potente sobre a desigualdade e a sobrevivência em tempos de crise, um prenúncio sombrio do que estava por vir. Já “O Poço 2” chega em um contexto bastante distinto e, utilizando as mesmas ferramentas, cenários e premissa, adota um discurso político mais direto e menos aberto a interpretações. As alegorias, os símbolos e as imagens viscerais que expõem a mediocridade da alma humana permanecem, no entanto, o fator novidade se dissipa, levando com ele boa parte do impacto do original.
Na trama, acompanhamos Perempuán (Milena Smit) e Zamiatin (Hovik Keuchkerian), prisioneiros em uma instalação enigmática, onde uma plataforma repleta de comida desce pelos andares, alimentando seletivamente os internos. Quando um líder enigmático surge impondo suas próprias regras, ambos se veem forçados a se unir contra o que identificam ser um sistema arbitrário e injusto.
O novo filme traz uma clara mensagem anti revolucionária, centrada em rígidos protocolos de distribuição de alimentos. Esses protocolos, quando violados, resultam em punições rigorosas. Os revolucionários, de acordo com suas supostas crenças, colocam a igualdade e a preservação da vida como prioridade absoluta, justificando qualquer ação, inclusive o derramamento de sangue, para assegurá-la. Diferente do primeiro filme, desta vez não há espaço para interpretações mais complexas, ou ambiguidades, já que a obra pouco sugere e verbaliza palavras de ordem a todo tempo. A inclusão de um personagem chamado Robespierre torna isso ainda mais evidente. Enquanto no longa de 2020 algumas leituras propunham uma crítica multifacetada a diversas visões de mundo, esta sequência se apresenta de forma mais unidimensional e monotemática.
Os personagens são pouco dinâmicos, cada um tendo apenas um ponto de virada. Perempuán, inicialmente quieta, transforma-se quando sua revolta a leva a adotar uma nova postura e atitude. Já Zamiatin, apesar de sua figura imponente e assustadora, revela um comportamento errático e vacilante, contradizendo sua aparência. Ainda que apresentem alguns momentos interessantes, ambos carecem da complexidade de Goreng e Trimagasi, a dupla do original que capturou com maestria a tensão entre ameaça e resistência.
Há uma conexão interessante entre os dois longas, com uma costura narrativa bem elaborada, além de um plot twist surpreendente e eficaz. O projeto ganha mérito por explorar novos caminhos e, embora visualmente repetitivo, não se apoia inteiramente no sucesso do primeiro filme. É inferior em todos os aspectos, mas ainda consegue se sustentar por conta própria, traçando seu próprio percurso.