“Mickey 17” : Bong Joon-ho aborda imaginário fascista e precarização do trabalho em nova produção hollywoodiana | 2025

O filme “Parasita” (2019) foi um verdadeiro fenômeno. A vitória no Oscar como o primeiro longa internacional a conquistar a categoria principal foi o momento mais emblemático de uma trajetória de sucesso, que já havia começado com a Palma de Ouro em Cannes. Porém, o sucesso não veio apenas do reconhecimento de público e crítica, mas também de uma campanha sem precedentes, que contou com apoio e financiamento direto do Estado sul-coreano. Diante desse impacto, era inevitável que a expectativa em torno do próximo projeto de Bong Joon-ho fosse altíssima. E, sem surpresa, seu novo trabalho acontece em solo americano.
Embora amplamente reconhecido por seus filmes rodados na Coreia do Sul, como “Memórias de um Assassino” (2003) e “O Hospedeiro” (2006), Bong Joon-ho já havia embarcado no cinema ocidental em “Expresso do Amanhã” (2013) e “Okja” (2017). No entanto, suas produções fora da Coreia tendem a perder nuances essenciais, algo evidenciado pelo uso recorrente da caricatura como ferramenta de crítica social. Ainda que a sátira e a caricatura sejam recursos narrativos eficazes, sua força depende de um equilíbrio preciso. Infelizmente, em “Mickey 17”, esse equilíbrio é inexistente, com a narrativa mais uma vez cedendo a excessos que eliminam sutilezas e esvaziam qualquer traço de ambiguidade.
A trama acompanha Mickey Barnes (Robert Pattinson), um jovem ingênuo e endividado, que vê no programa espacial financiado pelo excêntrico Kenneth Marshall (Mark Ruffalo) uma chance de recomeçar. O projeto busca colonizar um novo planeta, e Mickey, sem compreender totalmente sua função, se inscreve como “Descartável” — um cargo que o transforma em cobaia para uma série de experimentos arriscados. Sua única garantia é a tecnologia revolucionária do programa: uma impressora capaz de recriar corpos humanos, trazendo-o de volta sempre que necessário. Quando a 17ª versão é declarada morta, a reimpressão de sua 18ª versão coloca em risco não apenas a missão, mas o futuro da própria colônia.
Antes de qualquer coisa, é fundamental destacar que nenhuma técnica ou ferramenta narrativa é inerentemente ruim. Seu êxito ou falha depende exclusivamente do modo como é empregada. A narração em off, por exemplo, é um recurso amplamente utilizado no cinema e pode enriquecer a experiência do espectador, como em “Os Bons Companheiros” (1990), onde complementa o que está em tela e adiciona camadas de ironia, tensão e intimidade, tornando-nos cúmplices da trajetória do protagonista. O problema em “Mickey 17” não está na narração em si, mas no fato de que ela apenas descreve o que já está em tela, sem acrescentar nada à história. Um exemplo claro ocorre quando o protagonista está em um refeitório e menciona que o ambiente é silencioso, apenas para logo depois destacar a chegada espalhafatosa de Kenneth Marshall e sua esposa, Gwendolyn (Toni Collette). Contudo, a própria construção visual já deixa isso evidente: a cena apresenta um grupo de pessoas uniformizadas, cabisbaixas, até que a entrada dos dois figurões altera drasticamente a atmosfera do local. Nada disso precisava ser verbalizado. Esse recurso é reiterado em várias cenas. Quando um personagem “X” hesita em apertar um botão, alguém imediatamente pontua: “Você está com medo, não está?”. Ou ainda em um salvamento improvável que ocorre lá pela metade do filme, mas que, no desfecho, tenta ser tratado como uma grande revelação. O pior exemplo acontece quando as versões 17 e 18 de Mickey aparecem lado a lado. Apesar das diferenças de personalidade entre eles serem perceptíveis, o filme ainda reforça essa distinção fazendo uma terceira personagem desenhar seus números no peito de cada um. Isso não apenas subestima a inteligência do público, como também reduz a complexidade do personagem, algo particularmente injusto com Robert Pattinson, um ator que já demonstrou versatilidade em vários outros trabalhos.
Uma crítica recorrente a filmes que se propõem a questionar o sistema é a defesa automática de que quem não gostou, não entendeu. Mas a mensagem de “Mickey 17” está longe de ser sutil. A descartabilidade do protagonista como alegoria da precarização do trabalho e a caricatura escandalosamente óbvia de Elon Musk no personagem de Mark Ruffalo são leituras evidentes, perceptíveis a qualquer espectador minimamente atento. Filmes como “O Ditador” (1940), “Doutor Fantástico” (1964), e o recente “Não Olhe Para Cima” (2021) provam que o exagero e o ridículo podem ser usados para criticar questões sociais e políticas sem abrir mão de nuances. A sátira bem construída não se limita à exposição de problemas estruturais; ela instiga a reflexão e, frequentemente, causa desconforto. Em “Mickey 17”, Bong Joon-ho, no entanto, recorre a simplificações, com soluções pouco elaboradas que são excessivamente didáticas. O resultado é um filme que, apesar de se vender como provocador, não ultrapassa a superfície, gerando impacto social nulo e se contentando com a mera reprodução de discurso.