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“Máquina do Tempo”: longa britânico lança olhar crítico sobre os dilemas éticos da manipulação do futuro | 2025

Filmes sobre viagem e manipulação do tempo têm lugar cativo na cultura pop, com destaque, em termos de popularidade, para obras como “De Volta para o Futuro” (1985), “Minority Report: A Nova Lei” (2002) e “Efeito Borboleta” (2004). No entanto, mesmo antes do cinema, a literatura já explorava essa questão, como é o caso do livro “A Máquina do Tempo”, de H.G. Wells, publicado em 1895 é considerado pioneiro de muitos conceitos futuristas que continuam influenciando a ficção científica. Apesar de frequentemente associado à aventura, “A Máquina do Tempo” aborda temas complexos como desigualdade social e contradições de uma sociedade de progresso regido pela ciência, tratando-a como hegemônica sem o necessário debate ético.

É nesse contexto que se insere o projeto do diretor estreante em longas Andrew Legge, “Máquina do Tempo”, usando essa mesma alegoria para discutir as implicações éticas do uso de tal tecnologia. Ambientado na Inglaterra durante os turbulentos anos de guerra, a trama segue Thom (Emma Appleton) e Mars (Stefanie Martini), duas irmãs jovens e reclusas que cresceram órfãs em uma casa de campo. Thom, uma inventora brilhante, cria uma máquina capaz de captar sinais de rádio e televisão do futuro. Confrontadas com o potencial de usar esse poder, as irmãs são lançadas em um turbilhão de dilemas morais e decisões críticas que têm o poder de alterar o curso da história.

Embora a premissa de “Máquina do Tempo” não represente uma viagem no tempo no sentido tradicional, a ideia central de visualizar o futuro já o alinha ao tema. Acrescido do contexto bélico, o filme radicaliza ainda mais essa proposta. Utilizando conhecimentos históricos, as protagonistas optam por fornecer à inteligência britânica informações sobre os movimentos do exército nazista, permitindo a antecipação e neutralização das ofensivas alemãs. O plano inicialmente se mostra um grande sucesso. Contudo, como frequentemente ocorre em narrativas desse gênero, o futuro previsível cede espaço a um novo futuro, agora dominado pelo imponderável.

A primeira grande problemática a ser abordada é o impacto na sociedade e na cultura. Através da televisão, as irmãs têm acesso a tendências futuras, passando a admirar ídolos como David Bowie e Bob Dylan. Mesmo agindo em nome de um bem maior, as intervenções das irmãs no conflito não só alteram seu curso, mas também redefinem toda a existência a partir de então. Porém, esse pequeno grande susto é apenas um prenúncio do que está por vir.

O que se desenrola a partir disso é uma série de tentativas de uso da LOLA (nome atribuído a invenção), adotando um viés mais institucional. Se inicialmente as protagonistas mantinham um caráter de salvadoras anônimas, quase como em um conto de super-herói, em dado momento o estado assume o controle. Paralelamente, o filme tenta encorpar a narrativa com elementos dramáticos, visando aprofundar as personagens além das implicações morais de suas decisões no conflito em curso. No entanto, essa tentativa esbarra no uso do formato found footage. Ainda que o formato inicialmente conferisse um ar de segredo e mistério, ao tentar dramatizar a vida pessoal das protagonistas, gera cenas em que a presença de uma câmera amadora soa incoerente. Parece haver uma falta de confiança no potencial da história de explorar dilemas através de um olhar único e específico. É como se, para ser considerado sério ou relevante, o drama fosse necessário. O resultado é uma perda de foco que diminui a relevância das discussões, apontando para muitos lados sem se aprofundar em nenhum deles de maneira eficaz.

Quando enfoca as consequências do uso da máquina, o filme transmite desorientação e urgência, imergindo o espectador na complexidade das decisões. Ao explorar as profundas mudanças históricas desencadeadas, “Máquina do Tempo” também nos instiga a ponderar sobre o impacto real da tecnologia, mesmo quando utilizada com as melhores intenções.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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