“Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1”: exaltando o clássico e ignorando contradições, Costner dá início a projeto de ambições épicas | 2024

Não é exagero afirmar que narrar a história do gênero western equivale, em grande medida, contar a própria história do cinema — ou, pelo menos, uma parcela considerável dela. Desde “O Grande Roubo do Trem” (1903) até “Ataque dos Cães” (2021), entre ascensão e queda, o western consolidou-se como um elemento central na construção do imaginário coletivo norte-americano. Inicialmente marcado por um valor histórico, o gênero rapidamente assumiu um caráter simbólico, explorando arquétipos e valores culturais que transcenderam a simples representação de eventos do passado.
Lançado em Cannes 2024 e disponibilizado direto no catálogo da Max, sem exibição nos cinemas nacionais, “Horizon” representa a ambiciosa tentativa de Kevin Costner de revisitar o western em uma narrativa épica, explorando tanto a história quanto os mitos do Velho Oeste americano. Embora reproduza elementos clássicos do gênero — como o êxodo dos colonos em busca da terra prometida, os conflitos com os povos originários, o cowboy misterioso e solitário, o vilão que ameaça a comunidade e o romance entre o oficial dedicado e a jovem em dificuldades —, o filme desconsidera o viés revisionista que redefiniu o gênero a partir da década de 60. Ao se apoiar em convenções amplamente exploradas, “Horizon” soa anacrônico, evocando a grandiosidade do passado sem dialogar criticamente com as transformações históricas e simbólicas que moldaram o western.
O modo clássico de fazer cinema, predominante entre as décadas de 1910 e 1960, caracteriza-se por uma narrativa linear, uma montagem “invisível” e uma encenação naturalista, que busca criar uma ilusão de realidade. Entre os grandes nomes desse estilo, destaca-se Clint Eastwood, cuja direção remete à estética clássica em toda sua filmografia. Kevin Costner compartilha dessa tradição, especialmente em filmes como “Dança com Lobos” (1990), um épico que combina narrativa envolvente e paisagens visualmente impressionantes. “Horizon”, seu mais novo projeto, compartilha dessas qualidades, ainda que sem o mesmo virtuosismo.
O primeiro capítulo de “Horizon” marca o início de uma ambiciosa saga que busca retratar a expansão americana para o oeste, abrangendo 15 anos de história, entre 1859 até os anos que sucedem a Guerra Civil (1861-1865). Esse recorte temporal é mais explorado no gênero, contrastando com períodos como a corrida do ouro, anterior a 59, ou a decadência do cowboy próximo à virada do século XIX para o XX, que recebem menos atenção. Assim, “Horizon” insere-se nesse intervalo histórico já consolidado, recorrendo a signos conhecidos que pressupõem um público familiarizado com o western. No entanto, há questões que merecem atenção, sobretudo quanto ao pouco espaço dado ao revisionismo que transformou o gênero após os anos 60, quando as convulsões sociais questionaram a imagem idealizada do americano médio e trouxeram maior complexidade à iconografia do western.
Em “Horizon”, a perspectiva é completamente centrada no colonizador. Ainda que personagens nativos expressam ideias pontuais, predomina a imagem do “índio no topo da colina”, observando diligências com uma trilha sonora ameaçadora, perpetuando estereótipos maniqueístas. Alguns personagens colonos são retratados de forma excessivamente inocente, enquanto a inclusão de personagens negros convivendo entre brancos é feita sem relevância narrativa ou comentário social. Dada a ambientação na Guerra Civil, um período marcado por tensões raciais, essa ausência é notável e reforça a impressão de nostalgia acrítica. No cinema, decisões políticas residem tanto no que é mostrado quanto no que é omitido, e essa escolha parece deliberadamente servir ao esvaziamento de questões mais complexas. Para ser justo, o papel das mulheres em “Horizon” é consideravelmente mais altivo. Mesmo que distante de uma perspectiva feminista, as personagens femininas possuem autonomia e personalidade, assumindo certo protagonismo dentro das limitações históricas do período.
Já a coragem é uma qualidade que não se pode negar a Costner, considerando a magnitude da empreitada a que se propôs: estruturar uma narrativa dividida em quatro capítulos, sendo o segundo previsto para lançamento ainda em 2025. Este primeiro capítulo, com duração de 3 horas, apresenta um arco satisfatório, com início, meio e fim bem definidos, mas deixando um gancho claro para a continuidade, além de abrir espaço para um aprofundamento maior dos personagens e núcleos introduzidos. Diferentemente de algumas críticas, o formato não remete a uma série; ao contrário, busca resgatar uma dimensão épica que se revela mais impactante quando assistida sem interrupções.
“Horizon” funciona como uma carta de amor ao western, ainda que escrita por alguém cuja visão permanece profundamente enraizada no século passado. Riquíssimo formalmente, mas de discurso raso e ultrapassado.