“Girassol Vermelho”: Kafkaniano por excelência, longa destaca Chico Diaz em grande atuação l 2025

O cinema brasileiro mantém uma rica tradição de explorar as consequências de regimes autoritários sob uma perspectiva crítica e diversificada. Clássicos como “Pra Frente, Brasil” (1982) e “Cabra Marcado Para Morrer” (1984) já adentravam nas complexidades e brutalidades da ditadura. Essa temática persiste até hoje e se expande em produções mais recentes como “Marighella” (2019) e “Ainda Estou Aqui” (2024), que não só revisitam a resistência ao autoritarismo, mas também enriquecem o diálogo contemporâneo. Cada obra, mesmo tratando de temas similares, apresenta uma perspectiva única, contribuindo para um discurso mais rico. “Girassol Vermelho” é mais uma peça nesse tabuleiro. Nele, um cenário distópico serve de base para estabelecer conexões, proporcionando uma experiência sensorial e profundamente alegórica.
A trama segue Romeu (Chico Díaz), um homem em busca de liberdade. Por obra do acaso, seu trem para em uma cidade enigmática, sob domínio de um regime totalitário que o impede de seguir viagem. Capturado e submetido a uma série de interrogatórios, Romeu é continuamente torturado, mergulhando em um estado de crescente desespero. Consumido pela dor, ele é lançado em uma espiral delirante, beirando os limites da sanidade.
O filme começa em uma estação de trem, onde apenas Romeu e Eva são visíveis, um casal em despedida. Em meio a uma névoa densa, destaca-se um girassol vermelho e uma mala cheia de maçãs que se abre inesperadamente. Ele parte; ela permanece. Apesar de parecer uma cena trivial, cada elemento da sequência evoca um sentimento de desorientação, antecipando nuances do que está por vir. A ambientação por onde Romeu transita quando chega a cidade misteriosa assemelha-se a um vasto galpão, repleto de vigas expostas, muita poeira, containers espalhados, televisores suspensos, e a presença constante de um oficial proclamando discursos carregados de frases de ordem. O cenário, deliberadamente artificial, conta com poucos personagens e quase nenhum figurante, conferindo uma sensação de desolação às ruas da cidade. Este ambiente quase fantasmagórico é apenas ocasionalmente perturbado pelo patrulhar de veículos militares. A encenação, igualmente artificial e intencional, utiliza símbolos e metáforas visuais, optando por uma abordagem que, para denunciar a realidade, a extrapola com maestria.
Porém, apesar desses méritos na construção de atmosfera, a força do filme começa a esmorecer já nos primeiros trinta minutos. Depois de estabelecer firmemente sua premissa, o longa cai em uma reiteração exaustiva. Embora essa reincidência tenha sua justificativa — refletindo o mecanismo de tortura, que intrinsecamente opera através da repetição —, as variações dentro dessa repetição são mínimas e pouco impactantes. Segundo Deleuze, notável filósofo francês do século XX que elaborou extensivamente sobre cinema, a repetição é uma ferramenta para explorar a diferença e a singularidade; contudo, o filme falha em capturar essa essência, tornando-se apenas monótono.
A sequência final, ambientada em um jantar pra lá de bizarro, adiciona um sabor intrigante ao desfecho. No entanto, ao avaliar o filme como um todo, o que realmente se destaca são esses lampejos de criatividade e a performance excepcional de Chico Díaz. A noção de que um filme é “necessário” tornou-se um clichê e, em certa medida, contraproducente, pois, de fato, nada é absolutamente necessário. Mas “Girassol Vermelho”, apesar de seus deslizes, carrega consigo uma autoria marcante e uma voz que, nos dias de hoje, é crucial ser ouvida.