“Flow”: metáfora audiovisual exprime beleza através de jornada absurdista | 2025

É comum encontrarmos, na sétima arte, obras feitas para atingir um público bem específico. Esse contorno de particularidade, que visa um nicho de consumo bem próprio, raramente fura a própria bolha e cativa o restante do mundo. Um desses casos de exceção à regra é a animação letã “Flow”, de Gints Zilbalodis, que tem se tornado um fenômeno mundo afora e que provavelmente será o vencedor do Oscar na categoria de animação. Esteticamente deslumbrante e desprovido de falas e presenças humanas em cena, o filme se abre como uma parábola moderna à pós-humanidade e àquilo que deixaremos para trás como legado enquanto, em contrapartida, também dialoga de forma alegórica com os medos e ressentimentos sociais que nos assolam cotidianamente.
Há quem diga que “Flow” foi o melhor filme longa-metragem de animação lançado internacionalmente em 2024. Particularmente, discordo. Contudo, apesar de sequer estar no meu ranking pessoal das cinco melhores animações, esse filme de traços independentes não deixa de ter grandes méritos em sua produção e merece, sim, todo o reconhecimento que está recebendo. Dentro de um contexto cinematográfico, onde a indústria de obras milionárias – e que por vezes alcançam a casa do bilhão – investe cada vez mais em aparatos e recursos estético-narrativos que não se importam em menosprezar o intelecto do público geral e visam o retorno comercial acima da expressão artística (criando produtos meramente descartáveis logo após o término da sessão), um filme de cinema-arte como “Flow” alcançar tamanha visibilidade é uma façanha que já se torna, por si só, notável.
O maior feito da produção comandada por Zilbalodis foi criar algo singular e relativamente barato a partir ferramentas modestas, mas que com o manuseio de uma boa equipe artesã conseguiu fazer um dos filmes mais originais da temporada. Estamos testemunhando o nascimento de uma nova tendência, assim como “Homem-Aranha no Aranhaverso” o fez em 2018. Custando “míseros” quatro milhões de dólares (míseros se comparados aos mais de 200 milhões que foram compuseram o orçamento de “Divertida Mente 2”), “Flow” conseguiu a proeza de ser inovador a partir de um programa de código aberto – estou falando do Blender, que é muito menos avançado do que os programas usados pelos demais estúdios que são referência há décadas. Confesso o estranhamento que se acometeu sobre mim nos primeiros minutos, mas depois de aderido o visual resta apenas a contemplação da excelente fotografia, das paletas de cores e sombras tão vibrantes e intimistas, numa abordagem pseudo minimalista do mundo com um tempero de surrealismo que faz as paisagens “comuns” se tornarem espetáculos vibrantes de luz e som.
Só que, apesar de tudo isso, o filme não me cativou. Talvez as pessoas que tenham sido adotadas por gatos se identifiquem mais com a narrativa de contemplação do mundo pela ótica de um felino perdido no mundo. Não é o meu caso. O filme não me emocionou, nem tampouco me fisgou a atenção ao ponto de eu me importar com os personagens. Nem de longe me senti tão tocado quanto em “Robô Selvagem”, da DreamWorks, que tem a cena mais emocionante de 2024 em seu miolo (estou falando, claro, do momento em que Ross vê Bico Vivo partindo em sua necessária migração). Todavia, apesar de não entender as emoções fortes que as pessoas dizem estar sentindo com “Flow”, não as recrimino. A arte consiste no alcance individual, na experiência íntima entre a pessoa e a tela. Não foi uma jornada repleta de conexão emocional para mim, mas fico feliz que tenha sido para outras pessoas. E vale destacar que não é preciso gostar de um filme para reconhecer sua excelência. Como crítico, vejo o imenso valor que essa obra possui, mesmo sem tê-lo tido apreciado como os demais.