Festival do Rio 2024: “Malu”, de Pedro Freire | 2024

“Malu”, que foi o único representante brasileiro no Festival de Sundance esse ano e está na Mostra Competitiva do Festival do Rio, é desses filmes que tem o poder de mexer como o nosso emocional, que alcança uma área do nosso íntimo que poucos conseguem. Acredito que por ser um filme profundamente pessoal para seu regente, o cineasta Pedro Freire, o projeto tenha o poder de tocar também o coração do espectador, assim como antes tocou o dele. Como me disse em depoimento, Pedro chorou desde o roteiro até a edição. A intimidade com a ‘biografada’ (se é que esse projeto pode ser chamado de uma biografia) resultou em um trabalho muito orgânico e cheio de afeto.
Protagonista que dá nome ao longa, Malu (Yara de Novaes) é uma ex-atriz que sonha em transformar o próprio lar num centro cultural com uma sala de teatro em sua comunidade; contudo, o excessivo apego emocional ao passado a impossibilita de viver sem conflitos com a filha, Joana (Carol Duarte), e com a mãe, Lili (Juliana Carneiro da Cunha). Malu era tal como um espírito livre e tinha uma personalidade forte, o que fez com que Pedro tivesse um extenso material que veio direto de suas memórias e vivências com a mãe. Traspor isso para as telas ficou a cargo da talentosíssima Yara de Novaes, que segundo ela, não quis mimetizar a persona de Malu Rocha, mas sim fazer sua própria leitura dessa visceral atriz. O resultado é uma catarse em cena que fica difícil desconectar os olhares de Yara e sua versão poderosa de Malu.
“Malu” é antes de tudo uma empreitada pessoal construída para o elenco dar tudo de si, mas para isso Pedro precisava encontrar as peças certas pro jogo, para que seu texto não perdesse a força que tem. Em conversa com Yara de Novaes, ela me disse que Pedro é um diretor que trabalha a atuação como poucos. Sendo assim, fica fácil identificar que “Malu” é um filme que alcança o público pela total compreensão que cada ator tem de seu personagem. “Malu” é um filme de ator e Pedro foi extremamente feliz em todas as suas escolhas.
Um dos poderes mais genuínos do filme de Pedro Freire é gerar identificação com o público. É louvável que em um primeiro trabalho o cineasta consiga conjugar tantos elementos, que oscilam entre momentos explosivos, com agressões físicas e verbais, até sequências de extrema ternura, carregadas de emoção. Freire não economiza na exposição das mazelas de sua progenitora, que faleceu por complicações em decorrência do mal de Príon, doença que atinge o sistema nervoso, aos 66 anos. “Malu” é uma poesia filmada , com duelos de grandes atrizes em cena. Mas como a vida familiar não é feita só de momentos felizes, fica a felicidade de saber que seu realizador conseguiu a destreza de tocar o público com uma história tão íntima. Freire fez de sua trajetória pessoal uma fábula universal sobre amor e ódio em família.