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“É Tempo de Amar”: melodrama francês mostra como segredos podem ser tão devastadores quanto uma guerra l 2025

“É Tempo de Amar” se inicia com imagens reais da punição infligida pela população das pequenas cidades litorâneas da região da Normandia às mulheres que se envolviam com soldados alemães durante a fase final da Segunda Guerra Mundial. São momentos de horror que mostram jovens sendo humilhadas por terem ignorado as ideologias (muitas vezes distorcidas) que transformam pessoas comuns em inimigos e se entregado à paixão. Desse prelúdio documental, surge a fictícia Madeleine, uma dessas jovens cruelmente apelidadas de “vadias dos boches”, que consegue fugir carregando no ventre o fruto desse “pecado”. E a esperança de abandonar os traumas do passado surge quando, ao tentar reconstruir sua vida trabalhando como garçonete num restaurante à beira-mar, ela conhece o estudante de arqueologia François.

O melodrama perpassa cada movimento dos personagens do longa dirigido por Katell Quillévéré, uma especialista em dramas familiares. E essa carga se impõe ainda mais quando o tempo passa e os segredos começam a se tornar insustentáveis. O caráter folhetinesco que deságua na trama de “É Tempo de Amar” transparece à medida que a relação entre Madeleine e François avança e numa curiosa mescla de carinho e conveniência, já que ambos parecem ter encontrado um no outro muito mais um refúgio do que uma paixão avassaladora que justificasse o apressado matrimônio.

Assim, por um lado, ela consegue a estabilidade necessária para criar o filho; ele, por sua vez, pode finalmente tranquilizar a família que temia tanto a sua inclinação homossexual que nem ousa questioná-lo por seu envolvimento com uma garçonete. Além dos desdobramentos que a convivência oblíqua do casal acarreta – e nisso, incluo a chegada de Jimmy, um soldado estadunidense que fará os véus caírem em definitivo –, o roteiro de Gilles Taurand abre espaço também para a nada fácil situação do pequeno Daniel (interpretado por três atores diferentes ao longo da narrativa), que passa a maior parte da vida questionando a mãe acerca do destino do pai alemão.

Mesmo não possuindo a intensidade de um Pedro Almodóvar ou o alcance político-social de um Christian Petzold, Katell Quillévéré cria um melodrama bastante correto na sua execução e muito bem interpretado. Do elenco, aliás, vale a pena destacar a atuação de Anaïs Demoustier (uma espécie de Marjorie Estiano francesa) pela maneira como se mantém convincente em cada uma das fases vividas por sua protagonista, e do sempre competente Vincent Lacoste (do maravilhoso “Amanda”), que aqui exibe lindamente todas as dores de uma pessoa mergulhada em conflitos.

“É Tempo de Amar” pode não arrebatar, mas é capaz de aquecer qualquer coração disposto a sentir.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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