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“Crônica de Uma Relação Passageira”: Desconstruindo clichês, longa oferece uma comédia romântica criativa e instigante | 2024

A comédia romântica é um dos gêneros mais populares no cinema, e embora “Crônica de Uma Relação Passageira” possa ser facilmente enquadrado nessa categoria, o filme subverte muitas de suas convenções. Adotando um tom irônico que mescla melancolia e humor, Emmanuel Mouret conduz a narrativa com um olhar niilista, explorando a peculiar dinâmica entre dois parisienses comuns. Nesse processo, o diretor desconstrói, um a um, os pilares dessa entidade misteriosa que se convencionou chamar de amor romântico.

Na trama, acompanhamos Charlotte (Sandrine Kiberlain) e Simon (Vincent Macaigne), duas personalidades opostas que se conectam por obra do acaso. Charlotte é uma mulher divorciada, com filhos, independente e confiante. Simon, por outro lado, é introspectivo e inseguro, com uma vida familiar estável ao lado da esposa e filhos. Apesar das diferenças, os dois iniciam um improvável caso, repleto de encontros furtivos que variam entre o convencional e o inesperado.

O filme se inicia em um bar, no meio de uma conversa que parece ter começado há algum tempo. Não é a primeira vez que Charlotte e Simon se encontram; antes disso, eles já haviam trocado um beijo, ainda que desprovido de maior significado aparente. Esse detalhe é importante, pois o que acompanhamos aqui não é o processo de encantamento típico de histórias românticas. Nesse primeiro momento, Charlotte é movida unicamente pelo desejo, enquanto Simon adota uma postura mais contida e ambivalente. Ela é decidida; ele, vacilante.

Embora o sexo seja uma constante na narrativa, ele ocupa um papel secundário. O cerne da trama está nos diálogos durante os encontros, que se configuram como embates retóricos cheios de reflexões provocativas. Essas trocas acontecem em diversos cenários: uma livraria, ruas arborizadas, um apartamento emprestado, um hotel qualquer, uma floresta afastada. Curiosamente, todos esses espaços, internos ou externos, são apresentados sob uma luz solar vibrante, em um contraste intrigante com a situação. Esse contraste se estende também aos diálogos, que variam entre o tom jocoso e alegre e momentos de acidez e mordacidade, mas sempre mantendo uma naturalidade impressionante.

A única sequência em que ocorre o uso de luz e sombra é quando uma terceira pessoa entra na história – um momento pontual, mas significativo. Além disso, o uso do zoom é empregado de forma sutil para intensificar determinadas sensações em momentos chave. Curiosamente, nenhuma figura ligada à vida pessoal de Charlotte ou Simon é mostrada: nem a esposa dele, nem os filhos dela. Essa decisão delimita o universo da história, concentrando-se exclusivamente na relação entre os dois e no desenrolar de seus encontros.

Uma história amoral é aquela que se distancia de julgamentos éticos, diferindo de narrativas que frequentemente definem o que é certo ou errado. Filmes como “Crônica de uma Relação Passageira” removem qualquer necessidade de validação, transferindo essa possibilidade para o público. Cabe ao espectador atribuir algum valor, e se preferir, concluir que nenhum valor é necessário. Em tempos de uma juventude tão puritana como a nossa, essa postura simples assume uma dimensão quase subversiva e por que não dizer, corajosa.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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