“Coringa: Delírio a Dois”: Subversivo e corajoso, filme foge do óbvio para abraçar o caos dos desencantos maturados | 2024
Eu não quero cantar mais

Voltaire, aquele famoso filósofo iluminista francês do século XVIII que a maioria de nós conheceu nos livros didáticos do ensino médio, deu certa vez uma definição muito astuta para aquilo que entendemos como história. Claro, ele se referia àquela com o H maiúsculo, mas o conceito é tão brilhante que, além de se estender até os dias de hoje (confirmando sua atemporalidade), acaba se encaixando também com precisão na trama que Todd Phillips elaborou para sua abordagem ao celebrado personagem Coringa nos dois filmes que dirigiu. Voltaire disse: “A história é apenas uma série de crimes e desgraças”. Justo. Observando o mundo em caráter sociopolítico, não há definição que melhor se faça uniforme à realidade. Contudo, no âmbito ficcional (caindo novamente naquele velho debate sobre a arte imitar a vida e a vida imitar a arte), Phillips se apropriou da figura do maior vilão do Batman e lhe deu camadas mais humanizadas, fazendo de sua obra um manifesto político sem maniqueísmos, onde a incerteza quanto ao real e ao delirante se torna o disfarce perfeito para tecer suas críticas sistêmicas.
O primeiro filme se propôs a relatar a jornada infortúnia de Arthur Fleck, um homem mentalmente instável que se torna ícone de uma revolução popular ao lutar contra as mazelas que lhe atormentavam. Um homem comum, com propósitos ordinários e que se agarrou a uma mísera oportunidade assim que teve chance, fazendo um incêndio a partir de uma fagulha. O segundo filme trata desses focos flamejantes, ampliando o incômodo social gerado pelas atrocidades vistas no filme lançado cinco anos antes, e também agrega um teor artístico mais explícito e menos violento em sua abordagem. Muito do que se vê permanece no campo hipotético da fantasia retroalimentada entre Fleck, mais uma vez interpretado com louvores por Joaquin Phoenix, e Harley Quinn, vivida com incandescência por Lady Gaga. É ao redor deles que o filme se desenvolve, traçando uma rota de indefinições ao público quanto ao que ocorre na realidade e quanto àquilo que se passa puramente no imaginário do personagem título. Existem, obviamente, passagens que denotam essas diferenças de forma mais nítida, principalmente durante os tantos números musicais que o filme apresenta; contudo, é na ausência da cantoria que reside o verdadeiro caos.
Para entender isso, não se pode ignorar o elefante na sala; o filme é sim um musical. As canções são usadas aqui como um instrumento cênico pautado em hipérboles, escrito para enfatizar que a relação de Fleck e Quinn ocorre através dela justamente por ter começado a partir de ensaios vocais. A música, tida popularmente como a linguagem universal, é encaixada na trama de modo a exteriorizar sonhos e sensações que a dupla experimenta em sua maratona ambiciosa rumo à liberdade e, por que não?, a uma apoteose ideológica martírica. É através desses números musicais que vai sendo construída, gradualmente, uma sinfonia de frustrações. Ocorre que o “mundo real” onde Fleck vive não é tão musical assim, e é nele que as maiores desgraças residem. Quase de forma metalinguística, os desencantos que são de Fleck também se tornam os de seus devotos e, por consequência, do público. Ninguém esperava uma proposta tão na contramão quanto um musical de devaneios auto-piedosos construídos como um exercício cênico. O filme, embora bem elaborado, se perde parcialmente na própria grandeza de seus números e acaba cometendo excessos que promovem alguns tons de fadiga no público ao enredar músicas após músicas em trechos que não demandam tal expressão. Esse cansaço se estende até ao próprio protagonista, que em dado momento diz à Arlequina “só conversa, para de cantar”.
Aos poucos a euforia vai ganhando contornos melancólicos, enquanto o sonho musical vai se esvaindo à medida em que Fleck percebe que tudo aquilo que ele idealizava não passava uma fantasia, como uma piada sem graça onde o riso vai minguando até silenciar. Entre montanhas a serem erguidas e frivolidades de um sonho quebrado, a sequência segue a ordem natural das coisas e surpreende justamente por dispor coragem acima da obviedade previsível que Hollywood tem adotado há muito tempo. Contraintuitivamente, é através da própria subversão da expectativa que o filme alcança coerência consigo mesmo e com o antecessor. É quando a máscara cai – ou, nesse caso, quando a pintura sai – que a figura do homem enraizado nas próprias desilusões aparece. O filme parece uma grande carta de indulgência – não de Phillips, mas da própria sociedade; sociedade essa que condena os caminhos do filme porque ainda não os entende. “Coringa: Delírio a Dois” é divisivo, mas também é um filme que, pelo menos por enquanto, permanecerá incompreendido por muitos. Odiado também, provavelmente. Minha intuição diz que o tempo há de enaltecer sua perspicácia para o tempo atual, onde a sociedade escolhe fingir cegueira na frente do espelho. Nós somos os monstros, e somos também nossos próprios criadores. Todd Phillips foi alguém que entendeu. A história ainda é aquela série de crimes e desgraças.