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“Capitão América: Admirável Mundo Novo”: episódico e ascendente , filme faz do inacreditável seu maior ponto de ruptura | 2025

Algum redator de discurso te ajudou com isso?

Eu já fui atropelado. Foi uma experiência horrível, tenho um ombro que estala até hoje. Aconteceu há muitos anos, em um bairro residencial da grande Vitória. Minha garota e eu estávamos atravessando a rua e um carro que vinha em baixíssima velocidade na via que ia em outra direção acelerou repentinamente. O condutor, talvez por descuido ou inexperiência, deve ter trocado os pedais e acabou jogando o carro para cima de nós dois. Lembro de tê-la puxado para trás, no reflexo, e recebido o baque do para-choque me pegando em cheio do lado esquerdo. Sei que quebrei o para-brisa enquanto voava por cima do carro, dando piruetas como se fosse a ginasta Daiane dos Santos, e caí estatelado no asfalto. Não lembro da dor, embora saiba que veio forte alguns instantes depois; mas lembro perfeitamente da sensação horrível de tomar impulso para levantar e ir atrás do condutor imprudente e o corpo simplesmente não responder ao comando por não conseguir forças para se pôr de pé.

Nos filmes de super-herói é comum nos depararmos com absurdos e impossibilidades. Não tomamos tais mirabolâncias como problemas porque, geralmente, existe uma “justificativa” plausível que endossa as extravagâncias exibidas em tela. Esse fenômeno ocorre porque quando vemos um filme fantástico, isto é, no sentido mais primário do termo, a descrença é suspendida em prol da narrativa quando há uma coesão firme naquilo que é apresentado – e isso só é alcançado quando a obra, individual ou coletivamente em um universo compartilhado como é o da Marvel em sua saga cinematográfica, estabelece suas próprias regras internas e as respeita. Isso, por definição, não acontece nem de longe em “Capitão América: Admirável Mundo Novo”.

Por ter sido atropelado (um atropelamento simples, se comparado a outros muito mais graves) e ter uma sequela física até hoje, sei que o corpo humano não é apto a resistir a grandes impactos sem sofrer danos consideráveis e, por muitas vezes, irreversíveis. O Universo Cinematográfico Marvel, com sua extensa fila de heróis, vinha mantendo um certo critério nos próprios absurdismos que tentava, pelo menos, justificar o quê fantasioso que se dispunha como nossa fonte de entretenimento. Contudo, se outrora ela sabia que verdade e verossimilhança são coisas bem diferentes, agora parece ter confundido tudo e esquecido que Sam Wilson, o novo Capitão América que se estabeleceu no final de “Vingadores: Ultimato” e na série “Falcão e o Soldado Invernal”, é apenas um humano.

Logo na primeira batalha do herói ele já chega quebrando a barreira do som em disparada rumo ao solo, fazendo aquela pose clássica do pouso de super-herói que Deadpool tanto satirizou em seu primeiro filme solo. Só ali já era para ele ter morrido. Enquanto os outros heróis tinham armaduras, eram deuses, tinham sofrido radiações que dão a eles super-força ou tinham passado por experimentos científicos que lhes aprimoravam o condicionamento físico e a resistência, Sam Wilson nunca passou, fisicamente, de um cara qualquer sem grandes aparatos – e falo isso sem qualquer tipo de menosprezo ou implicância ao herói, apenas quero pontuar que, por ser “gente como a gente”, ele não deveria aguentar nem a primeira cena do filme sem entrar em coma – isso se sobrevivesse. E o que vem a partir daí é um festival de coisas inacreditáveis, mas não do tipo “caramba, olha que incrível o que ele consegue fazer” e sim do tipo “como esse filme está mentiroso!”

Desse modo, um entretenimento que deveria ser escapista vira um exercício de constante quebra da suspensão da descrença. Toleramos Steve Rogers pulando de avião sem paraquedas e acreditamos na plausibilidade disso porque ele é estabelecido como sobre-humano; mas um cara sem qualquer aprimoramento e que só tem um traje que não trava nem sequer o seu pescoço e sua cabeça fica balançando durante as batalhas sobreviver ao tanto de impactos que sofre nesse filme não só é impossível no mundo real como deveria ser impossível também, por definição da veracidade narrativa, nem dentro do universo ao qual pertence.

No entanto, embora pareça contra intuitiva a afirmação que farei a seguir, gostei bastante do filme. O arco do protagonista ganha contornos mais relevantes, dando-lhe o devido destaque em uma trama que, apesar de se conectar diretamente com “O Incrível Hulk” (2008), “Capitão América: Guerra Civil” (2016) e “Eternos” (2021), é surpreendentemente episódica e funciona muito bem de forma individual. Parece, na verdade, um grande episódio de uma série de TV, e isso, nesse caso, não se torna um demérito. Harrison Ford, que aqui adiciona mais um presidente estadunidense ao currículo, fazendo um Ross bem diferente do construído pelo finado William Hurt – mas ainda assim transmite uma mudança crível e um sentimento honesto em sua proposta de ser um novo homem. Enquanto Hurt era mais durão e militarizado, Ford aqui desmancha aos poucos essa carapaça para dar outros contornos ao personagem e imprimir uma nova percepção a ele, com uma certa fragilidade no balançar inquieto enquanto espera ao telefone por uma conversa que sabe que não acontecerá mas que ainda assim se recusa a perder as esperanças e de tentar.

Com boas (e muito mentirosas) cenas de ação, o filme se divide entre abordar a aceitação de legados e mentorias e desenvolver um thriller político de espionagem com iminência de guerra. É um roteiro que não consegue se desvencilhar do passado, mas que consegue, a partir dele, ter uma identidade própria e se diferenciar dos demais por isso, mesmo que “se atropele” algumas vezes. Tem cenas onde o chromakey grita, onde conveniências se tornam injustificáveis, e diálogos tão expositivos que parecem ter sido regurgitados; mas também tem um carisma indesviável, humor equilibrado e um conglomerado de boas ideias que se firmam, com uma solidez cativante, na condução do UCM daqui em diante. É um entretenimento de boa qualidade que remete aos tempos iniciais da Marvel, que devolve a esperança de um retorno às origens e ao espírito inventivo das histórias de uma década e meia atrás.

Vinícius Martins

Cinéfilo, colecionador, leitor, escritor, futuro diretor de cinema, chocólatra, fã de literatura inglesa, viciado em trilhas sonoras e defensor assíduo de que foi Han Solo quem atirou primeiro.

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