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“Meu Nome é Maria”: cinebiografia reconta a traumática participação de Maria Schneider em polêmico clássico cult dos anos 1970 | 2025

“Eles não me deram outra opção.”

Poucos eventos dentro da indústria cinematográfica expuseram de forma tão cabal a relação abusiva entre os poderosos do mundo das artes e do entretenimento e as mulheres que fazem parte dele quanto a série de acusações que recaíram sobre o chefão da Miramax Harvey Weinstein em 2017. Ali ficou escancarado o quanto é delicada a situação de modelos, atrizes e demais profissionais do ramo quando precisam lidar com aqueles que, por conta da enorme influência que exercem no meio, podem num estalar de dedos destruir o sonho de carreira de sucesso. Além desse caso mais recente, um outro que ganhou bastante notoriedade, sobretudo devido aos desdobramentos ainda mais trágicos, ocorreu durante as filmagens do clássico cult “Último Tango em Paris” (1972), quando a jovem Maria Schneider – então com 19 anos – foi exposta a uma situação humilhante, de maneira não consensual, naquela que ficou conhecida como a cena da manteiga.

Dirigido por Jessica Pallud, “Meu Nome é Maria” não só vai reconstituir os momentos que antecedem àquele dia fatídico – expondo toda a empolgação de Schneider por trabalhar numa produção daquele porte – como também colocará em tela o drama vivido pela atriz francesa nos anos que se seguiram, numa luta constante contra o estigma e o trauma acarretados por aquela terrível experiência. Da assinatura da mãe – com quem ela nunca teve uma boa relação – autorizando sua participação no filme de Bernardo Bertolucci até o dia a dia de aprendizado no set ao lado do ícone como Marlon Brando, o roteiro assinado por Pallud e Laurette Polmanss retrata o encantamento de Maria, que encarava com muita coragem uma estreia num projeto ousado, que já causaria polêmica mesmo que não houvesse ocorrido o estupro do qual foi vítima.

Mas é a partir dele, um momento em que sua personagem é colocada numa posição de submissão sem que os detalhes jamais tenham sido discutidos na presença da protagonista, que o sonho vira pesadelo. Pallud reproduz com crueza a dinâmica da cena, sem que ela se torne uma espécie de nova exploração daquele horror (armadilha na qual um Gaspar Noé da vida facilmente cairia) e, além disso, a realizadora faz questão de que lembremos que havia uma equipe observando tudo aquilo sem demonstrar qualquer tipo de sentimento de reprovação, como se, em nome da arte, qualquer coisa fosse justificável: “Isso é só um filme.”, diz Brando (então com 48 anos) numa das falas mais asquerosas que alguém poderia dizer depois de tamanha agressão.

E ficou provado que o astro estava redondamente enganado, haja visto a derrocada psicológica e, consequentemente, profissional sofrida por Schneider após o lançamento de “O Último Tango em Paris”. Tendo seus algozes voltado para seus respectivos países, ficou a cargo dela carregar o fardo que foi enfrentar o moralismo da sociedade francesa da época e a maneira como a indústria cinematográfica do país a encarava, oferecendo-lhe apenas papéis nos quais o foco principal estava em deixá-la nua. Obviamente, esse turbilhão emocional geraria uma severa crise, que culminaria no seu vício em heroína e em muitas outras sequelas das quais ela jamais se recuperaria plenamente.

Do vislumbre do Olimpo à descida ao inferno, cada variante da personagem central é muito bem encarnada pela ótima Anamaria Vartolomei (do impactante “O Acontecimento”), que consegue transitar de maneira bastante eficaz pelas diferentes fases de Schneider. Vale destacar também a participação de Matt Dillon na pele de Brando, papel difícil que poderia cair facilmente na mera imitação ou numa caricatura grotesca, mas que é composto com bastante maturidade pelo ator norte-americano.

Adaptação livre do livro “Tu t’appelais Maria Schneider”, de Vanessa Schneider, “Meu Nome é Maria” refaz a trajetória de uma atriz que teve as possibilidades que o seu talento indicava ceifadas por uma decisão carregada do mais puro machismo que reina nos bastidores da indústria cinematográfica. Embora tenha trabalhado em projetos de outros grandes cineastas como Jacques Rivette e Michelangelo Antonioni, as marcas deixadas pelas filmagens de “Último Tango em Paris” se tornaram indeléveis e condicionaram os tristes rumos de sua vida, que chegou ao fim em fevereiro de 2011 em decorrência de um câncer. E se frases como “Naquela cena tive a sensação de ter sido estuprada por dois homens, Brando e Bertolucci.” não for o suficiente para que se repense a lógica que objetifica o corpo feminino nas artes, muitas outras Marias (esse nome não poderia ser mais simbólico) continuarão padecendo nas mãos de figuras masculinas para quem “só existe a personagem”.

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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