“Quando Chega o Outono”: François Ozon constrói drama familiar com pitadas de thriller tragi-cômico | 2025

O celebrado diretor e roteirista francês, François Ozon, baseou a premissa deste filme a partir de uma situação real que ocorreu com sua família. Uma de suas tias preparou uma ceia para sua família com cogumelos colhidos na região em que morava, porém, todos ficaram doentes após a ingestão dos cogumelos, exceto ela que não os comeu. A dúvida que pairou no ar se este havia sido um fato intencional ou acidental, inspirou Ozon a construir este drama de camadas chamado “Quando Chega o Outono” de 2024.
Praticamente todo filmado na região rural da Borgonha, durante a belíssima estação do Outono, o longa acompanha a idosa Michelle Giraud (Hélène Vincent), aposentada e solitária que conta apenas com a companhia de sua melhor amiga, Marie-Claude (Josiane Balasko). Durante uma visita de sua filha, Valérie (Ludivine Sagnier), com seu neto, Lucas (Garlan Erlos), serve no almoço cogumelos e uma quiche. Apenas Valérie ingere os cogumelos, tem uma intoxicação severa e quase morre. A partir daí, a relação entre mãe e filha, que já era conturbada, tensiona ainda mais quando Valérie desconfia que o envenenamento poderia ter sido proposital.
Paralelamente a este fato, acompanhamos uma trama simultânea sobre a soltura da prisão do filho de Marie-Claude Vincent (Pierre Lottin), um malandro que segundo sua mãe “sempre quer fazer o certo, mas sempre faz o errado”. Compadecida e querendo ajudar sua melhor amiga, Michelle contrata Vincent para trabalhar por hora para ela em sua propriedade, seja cortando e organizando lenha ou cuidando de sua horta. Os caminhos de Michelle e Vincent se cruzam para desencadear uma série de eventos cheios de dubiedade e situações convenientes para ambos. Ozon constrói um roteiro cheio de sutilezas mas sempre plantando algumas pistas, seja com olhares ou atitudes das personagens que quase nunca levam a uma conclusão absoluta. “Quando Chega o Outono” é um daqueles filmes que ao sairmos da sala de cinema, passamos a refletir sobre as reais intenções e condutas das personagens, especialmente de Michelle e Vincent.
A grande estrela da obra de Ozon é sem dúvida a atriz Hélène Vincent, uma composição espetacular que projeta doçura como uma avó dedicada ao seu neto e ao mesmo tempo ambiguidade em relação ao que é capaz de fazer para estar com ele. Esta é a segunda vez que a atriz trabalha com François Ozon, antes já havia colaborado com ele no premiado “Graças a Deus” de 2018. Pierre Lottin também faz um ótimo trabalho ao interpretar o enigmático e simpático, Vincent. Já Ludivine Sagnier, que também retorna após ter trabalhado com Ozon em “Swimming Pool – A beira da piscina” (2003), compõe uma personagem mesquinha, agressiva e odiável como a filha Valérie.
A fotografia exaltando as folhas do outono com tons terrosos, acabam remetendo a um sentimento de melancolia e tranquilidade, elementos que contrastam com as perigosas e contestáveis decisões que as personagens acabam tomando no enredo.
Sem dúvida, é cinema de primeiríssima que consegue elevar uma narrativa bem construída, um elenco afiado e uma fotografia marcante. O plano final que encerra a jornada de Michelle é poético e memorável, assim como mais esta obra de destaque na rica filmografia de François Ozon.