“Código Preto”: conciso e elegante, novo trabalho de Steven Soderbergh impressiona com dinamismo instigante l 2025
Querido, não pode drogar os convidados

Uma música que gosto muito, que curiosamente virou hit no Brasil há alguns anos, é a mais famosa da banda australiana Tame Impala, chamada “The Less I Know The Better” – e você certamente já ouviu alguma variação dela. Eu a conheci antes da pandemia, graças à presença da atriz Laia Manzanares, da série “Merlí” (2015-2018) em seu videoclipe obscenamente delicioso, e acabei enjoando de ouvi-la depois que virou dancinha de aplicativo. A afirmação em seu título, que em tradução livre diz “quanto menos eu souber, melhor”, acabou se tornando um mantra para mim durante um bom tempo. Estou citando tal obra porque, em contrapartida, “Código Preto” prega um argumento totalmente oposto a esse. No novo filme de Steven Soderbergh, que trabalha a dinâmica de traição (ou não) em relações matrimoniais e fraternas entre espiões, a máxima da vigilância mútua é “quanto mais se souber, melhor”.
A fotografia de horizontes esbranquiçados, meio leitosos e desfocados, reforça a ideia do roteiro de que algo não está nítido na observação do quadro como um todo. Toda a técnica empregada aqui é um primor na contação de uma história, desde os enquadramentos até a montagem, com cortes objetivos e cirurgicamente precisos. Atuações excelentes de todo o corpo de elenco, encabeçado por Michael Fassbender e Cate Blanchett e composto também por Regé-Jean Page, Naomie Harris, Tom Burke, Marisa Abela, Gustaf Skarsgård e Pierce Brosnan, dão um brilho ainda maior ao roteiro absurdamente envolvente de David Koepp, que trabalhou recentemente com Soderbergh também em “Presença”.
Koepp transmite tensão e luxo em diálogos repletos de temor e vaidade. O filme lembra, em meio ao desconforto das interações desconfiadas, o excelente “Deus da Carnificina” (2011). Em outros aspectos de enredo, ele em muito lembra “Aliados” (2016), mas com uma pegada que em muito se assemelha a outro filme de Soderbergh, “Terapia de Risco” (2013). Tudo comunica algo, desde um gestual inocente até um item aleatório em cena; tudo representa com maestria o quão metódicos os personagens são e o quão cegos podem estar sobre si mesmos até serem testados. Uma cena que representa muito bem o dilema matrimonial vivido por George (Fassbender), que tem a missão de investigar a própria esposa em uma suspeita de traição patriótica que colocaria muito mais em risco do que apenas o casamento, é a que ele está cozinhando e seus óculos se embaçam devido ao vapor que sai de uma panela. Teria o conforto da vida doméstica cegado George Woodhouse às possíveis tramóias de Kathryn St. Jean?
Se nessa trama incrivelmente intrincada o dito código preto representa tudo aquilo que não pode ser dito (como um aval corporativo entre os espiões que podem significar desde dar um golpe de estado em um país meso oriental até dar uma pulada de cerca com a colega no nono andar), ao público é dada uma carta branca para desbravar esse universo de dúvidas e interrogações, onde a desconfiança é apenas um ócio do ofício. “Código Preto” é um cinema objetivo e elegante, desses que provoca e satisfaz na mesma medida, que suspira uma sofisticação robusta e agrega ao cinema um teor de refinamento que eleva o nível de qualquer obra que queira adentrar o gênero da espionagem. Não é um filme de ação à lá James Bond, mas um suspense íntimo onde o método faz toda a diferença.