Construção e Destruição: O Paradoxo Brasileiro
Seria o sexo a nova "arte degenerada"?

A 97ª edição do Oscar foi um marco, e essa afirmação não é um exagero. A cerimônia serviu como palco para acontecimentos sem precedentes que, embora seja prematuro afirmar que representam uma ruptura de paradigmas, certamente indicam mudanças promissoras. A vitória de Flow, uma animação da estreante Letônia, sobre gigantes da indústria, e a conquista do primeiro Oscar pelo Brasil após um período de desgoverno que tentou deliberadamente destruir nossa cultura, são exemplos disso. Também é preciso destacar a vitória de Sem Chão, um documentário que não apenas expõe os dramas do povo palestino, mas também ofereceu aos seus representantes uma plataforma global para denunciar o genocídio em curso em Gaza, desafiando assim o silêncio muitas vezes observado em fóruns internacionais. Mas ainda que o Oscar tenha oferecido algum frescor, uma certa reação a ele revelou velhos fantasmas, de maneira nada auspiciosa. A ideia de que a história é cíclica pode parecer superficial à primeira vista, e em certa medida é mesmo, mas é plausível argumentar que, em certos momentos, a história de fato “rima”, expondo padrões e temas recorrentes.
Desde o encerramento da cerimônia a atenção nas redes sociais tem sido monopolizada pela controvérsia na categoria de melhor atriz, onde Fernanda Torres, embora não fosse a favorita, ainda tinha chances. Esta situação reflete problemas antigos da Academia, daí a possível correlação com casos recentes como o de Emmanuelle Riva, em 2013, ou Isabelle Huppert em 2016, ambas veteranas consagradas de outros países, mas que foram derrotadas por jovens promessas hollywoodianas. Mas isso, apesar de verdadeiro, é apenas uma parte da história. A mais superficial delas. Por outro lado, é completamente descabido estabelecer conexões entre as vitórias de Mikey Madison este ano e de Gwyneth Paltrow em 1999. A campanha de Shakespeare Apaixonado, promovida por Harvey Weinstein — uma das figuras mais repulsivas de Hollywood —, envolveu práticas como compra de votos, entre outros absurdos. Qualquer paralelo com a situação de Anora é, para dizer o mínimo, desonesto.
Surpreendentemente, as críticas a Madison por seu papel em Anora carregam um viés moralista vindas de pessoas que se autoproclamam progressistas e defensoras das artes e manifestações populares, como o carnaval. Nesse contexto, surge uma versão pseudo-intelectual da tão ultrapassada defesa dos bons costumes. Enquanto do lado de lá, o argumento evoca a proteção das crianças, do lado de cá, o discurso é adornado com um verniz acadêmico, supostamente lutando contra o machismo ou algo semelhante. A boa e velha ‘censura do bem’. Expressões depreciativas como ‘ganhou só porque mostrou o corpo’ ou ‘como assim um filme sobre uma prostituta venceu?’ levantam a questão: seria o sexo a nova ‘arte degenerada’?
A repulsa ao sexo ou o desconforto provocado pela nudez, especialmente quando experienciados coletivamente numa sala de cinema, não são novidades. Isso Freud explica. Mas, ao simplesmente rejeitarmos esses aspectos nos filmes, ou em qualquer outra mídia, não estamos, na verdade, evitando confrontar problemas intrinsecamente nossos? No ano passado, o filme Pobres Criaturas recebeu críticas similares, com a vitória de Emma Stone sendo questionada por seu papel que incluía cenas de nudez e sexo. Essa reação revela uma profunda desqualificação do debate, que não visa avaliar a qualidade ou os méritos de uma obra, mas reduzir complexidades e perpetuar preconceitos. Pior ainda, essa tendência simplista frequentemente reduz a discussão ao puro e simples meme. É a falência do pensamento crítico.
Anora, por sua vez, representa uma grande vitória do cinema independente, assim como Flow, Ainda Estou Aqui e O Brutalista, todos menores em escala se comparados a Hollywood, mas que demonstraram como a criatividade pode superar limitações orçamentárias. Anora também desbancou momentaneamente o preconceito contra comédias, mostrando que é possível aliar leveza e crítica social em um equilíbrio harmonioso entre humor e drama. A direção de Sean Baker em Anora é marcada pela empatia, refletindo sobre a falência do sonho americano, um traço evidente também em seus trabalhos anteriores, como em Projeto Flórida, Tangerine e Red Rocket.
As profissionais do sexo trazem consigo complexidades e vivências que vão além da mera exposição do corpo. É interessante observar como essa rejeição ao apelo sexual é frequentemente vista como um resquício do passado. No entanto, é razoável considerar que o presente é consideravelmente mais conservador nesse aspecto, mesmo se comparado às últimas quatro ou cinco décadas. Um exemplo ilustrativo é um dos movimentos cinematográficos mais representativos em termos de audiência nos cinemas brasileiros, as pornochanchadas, que foram um grande sucesso de público entre os anos 70 e 80. Em suma, é evidente que o progresso, seja ele material ou cultural, não é linear. Não somos necessariamente melhores hoje do que éramos antes.
Portanto, enquanto os discursos da cerimônia foram, em sua maioria, positivos, os comentários nas 24 horas subsequentes revelam um descolamento preocupante da realidade, atingindo níveis que fariam até a própria Karla Sofía Gascón corar de vergonha. Isso demonstra como um certo puritanismo não é exclusivo dos setores mais conservadores da sociedade. Devemos estar atentos. A defesa da cultura precisa ser irrestrita, caso contrário, a arte se transforma em propaganda, o artista em um empregado e o público em mero fantoche.
Ótima análise!