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“Zé”: Drama contido de Rafael Conde retrata as consequências da ditadura sobre os sonhos de uma geração | 2024

A ditadura militar brasileira segue rendendo obra artísticas nos mais variados campos da cultura. No cinema, filmes como “O que isso Companheiro?”, “Batismo de Sangue”, “Lamarca” e, mais recentemente, “Marighela” são exemplos de que o tema ainda é bastante rico e essencial para a formação da memória nacional. Alguns podem afirmar que produções como essa são monotemáticas e centradas numa espécie de cinema eminentemente político. A questão, no entanto, é que, repressão, censura, tortura e silenciamento, praticados como política de estado, podem e devem ser relembrados pela arte.

O filme de Rafael Conde é um drama contido sobre como um ideal, sufocado pelo autoritarismo estatal, aniquila o indivíduo e deixa marcas indeléveis nos amigos e familiares. Zé é um militante de esquerda do movimento estudantil brasileiro que participa de um grupo de resistência à ditadura militar. Perseguido, ele escolhe clandestinidade, renunciando a sua vida de cidadão de classe média para se embrenhar nos rincões do país e viver com o povo, realizando a conscientização política dos mais pobres. Nesse caminho ele conhecerá Bete, companheira de luta, com quem terá dois filhos. Durante seu tempo na clandestinidade, ele recebe Gilberto, irmão de Bete, como um novo militante. Gilberto, no entanto, é um agente infiltrado da repressão. Zé morre sob tortura, falsamente acusado pelos militares de ter traído todos os seus companheiros, desaparecidos até hoje.

Essa história trágica, tão comum naquele período, nos faz lembrar como a luta pelo restabelecimento da democracia ceifou vidas, destruiu famílias e aniquilou os sonhos de toda uma geração. Apesar da covardia sanguinária imposta pelo terror de Estado, a escolha narrativa de Rafael Conde procurou retratar as consequências do autoritarismo sobre aqueles que se levantaram contra o regime. Zé era um estudante de classe média da Universidade Nacional de Brasília, que tinha o pai como professor. A militância do filho fez com que ele tivesse a cátedra caçada, o que não o impediu de apoiá-lo em suas escolhas. A perda do contato com o filho por longos períodos durante a clandestinidade, embora angustiante, jamais o fez duvidar de que a causa pela qual o filho resolveu lutar, era uma causa justa.

As renúncias por um ideal, porém, cobram o seu preço. Viver escondido em cidades interioranas, fazendo contrapropaganda a um regime opressor, pregando a conscientização política do povo para alcançar a liberdade, exigem sacrifícios individuais que, por mais das vezes, afetam de maneira irrevogável as relações pessoais. Zé e Bete viviam isolados, em condições precárias, com dois filhos para criar. A distância, a ausência de contato e um certo esquecimento por parte das organizações políticas pelas quais lutavam, impunham uma tortura psicológica tão ou mais cruel do que aquelas praticadas nos porões do DOI-CODI. Essa condição de penúria, evidentemente, gera conflitos e desilusões. Cuidar da educação e da saúde dos filhos enquanto se faz luta política, não são “problemas pequenos burgueses” para serem ignorados.

Ao centrar a trama nesses conflitos, Rafael Conde dá uma dimensão humana a história, fazendo com que os personagens repensem suas convicções e reavaliem seus propósitos. Até que ponto o puro idealismo pode sacrificar o bem-estar daqueles que estão sob nossa proteção? Essa é uma pergunta implícita que acompanhará Zé e Bete ao longo de suas jornadas.

Apesar do drama bem construído, o roteiro peca pelo excesso de diálogos expositivos. Mesmo que se trate de um filme cuja ficção é ambientada num determinado período histórico de muita ebulição política, em muitas ocasiões os diálogos dos personagens fazem lembrar a apresentação de um trabalho acadêmico; não soam naturais. Outro problema é o papel do personagem Gilberto, o agente infiltrado do regime. O roteiro ignora suas motivações. Ele é o irmão de Bete, a companheira de Zé, tio de seus dois filhos. Ele foi apresentado como um ex-militante que, embora tenha deixado a luta, prestou apoio aos protagonistas na clandestinidade. Em nenhum momento é explicado o que o levou a ser um colaborador da opressão cujas ações foram determinantes para que seu cunhado e sua irmã fossem capturados. Talvez isso pudesse ser mais bem trabalhado se o diretor abrisse mão dos monólogos conduzidos pelo protagonista em diversas cenas com quebra de quarta parede, muitas vezes enfadonhas e que não fazem a trama seguir. Mesmo com esses pequenos percalços, “Zé” é um filme absolutamente necessário.

Vitor Pádua

Advogado que expia o juridiquês com a paixão pela fotografia e pelo cinema.

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