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“Vitória”: longa mostra trajetória de idosa que ajudou a desbaratar o crime organizado em Copacabana | 2025

Entre tantos tiros que ameaçam cruzar o apartamento de dona Nina todos os dias, um deles adentra sua sala  durante um café da tarde. O susto, num impulso de escapar do projétil, provoca a queda de uma xicara que ao que parece fazia parte de um jogo de louça com algum apelo sentimental para ela. Nina então junta os cacos e começa um processo de ‘restauração’ do item.

Dona Nina, ou Vitória, que dá nome ao novo filme de Andrucha Waddington e Breno Silveira, que estreia essa semana nos cinemas, é inspirado na história real de Joana da Paz, uma mulher que foi capaz de enfrentar os perigos de uma comunidade afundada no tráfico para tentar viver em paz e com segurança no apartamento que comprou com as economias feitas durante toda uma vida. A trama, com roteiro de Paula Fiuza baseado no livro Dona Vitória Joana da Paz, escrito pelo jornalista Fábio Gusmão, mostra a força de uma mulher solitária, ex-empregada doméstica e que atua como massoterapeuta, tem em Fernanda Montenegro a representação nobre dessa personagem da vida real que ganha traços humanos e de fácil identificação. Segundo fontes, a escolha de Fernanda se deu pela admiração de dona Joana pela atriz indicada ao Oscar.

Vitória  mora na ladeira da misericórdia, em Copacabana, que assim como em muitos lugares no Rio de Janeiro é ladeada por uma comunidade dominada  pelo tráfico.  Aflita com a violência que passa a tomar conta da sua vizinhança e em conflito com os vizinhos, começa a filmar da janela de seu apartamento. A idosa registra a movimentação de traficantes de drogas da região durante meses, com a intenção de cooperar com o trabalho da polícia. A atitude consegue chamar a atenção de um jornalista, Flávio (Alan Rocha) que acaba se tornando um amigo de Vitória enquanto tenta ajudá-la nessa perigosa missão.

“Vitória”, através do drama dessa senhora, que precisou mudar de nome e de cidade para não morrer, escancara mais uma vez a já conhecida ineficiência do poder público frente a dominação da violência do tráfico e também da corrupção que encontra adeptos até mesmo dentro da própria polícia. No meio de tanta sujeira surge Laura Torres, uma inspetora de polícia que não se deixou levar pela corrupção e que vai contar com a ajuda de Nina/Vitória para desmantelar essa célula de contravenção. Quem dá vida à Laura é a sempre ótima Laila Garin, em participação pontual mas marcante.

O filme de Andrucha (herdado de Breno Silveira quando este teve um infarto no set) tem apelo social, mas se revela como um drama potente, muito em função da força de sua protagonista. A narrativa ainda guarda momentos de ternura, humor e tensão. A humanidade de Nina/Vitória, assim como a importância que ela dá a pequenos atos de carinho são atributos que irão fisgar de cara o espectador. “Vitória” também nos faz enxergar a nossa própria impotência frente à maldade do mundo, e assim como aquela xícara quebrada, ainda que tentemos colar os cacos, nada será como antes. Essa representação diz muito sobre como se tornou a confiança do povo em relação ao poder público, que ainda que se restaure em um ponto ou outro,  verá o ‘café’ se esvaindo por uma pequena fresta, às vezes praticamente imperceptível.

Rogério Machado

Designer e cinéfilo de plantão. Amante da arte e da expressão. Defensor das boas causas e do amor acima de tudo. Penso e vivo cinema 24 horas por dia. Fundador do Papo de Cinemateca e viciado em amendoim.

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