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“Tuesday: O Último Abraço”: Impondo poesia ao caos, filme com Julia Louis-Dreyfus comove ao fazer do luto um caminho necessário | 2024

Senhora, precisa dizer adeus à sua filha

O desfecho da história da adoentada Tuesday, uma adolescente espirituosa com câncer terminal, é prenunciado já nos primeiros minutos do filme que carrega seu nome; ela vai morrer. Com a tragédia devidamente anunciada, cabe à trama trabalhar os caminhos que ela há de percorrer enquanto ressignifica a própria existência, a relação com a mãe e até mesmo a própria Morte – sim, com M maiúsculo, porque aqui a Morte extrapola o campo metafísico e se faz também um personagem a ser apreciado e, por que não?, compreendido.

Sem esboçar qualquer necessidade de grandes explicações quanto aos motivos ou contextos, o filme se inicia com recortes dos últimos segundos de vida de diversas pessoas pelos quatro cantos do mundo. Enquanto a Morte opera seu ofício, vemos essa variedade interessante de situações em uma pluralidade curiosa de culturas, mas não em caráter generalista e sim em escopos individuais enquanto cada um lida com a Morte do seu jeito. Algumas pessoas amarguradas, outras arrependidas, outras ainda aliviadas; algumas tentando abraçar a própria iminência do fim e outras tentando enfrentar e maldizer a Morte que se personifica diante deles na forma de uma grande arara vermelha. Parece surtado – e é, de certo modo, mas também poético e melancólico.

Tudo muda, no entanto, quando a arara atende ao “chamado” dos últimos suspiros de Tuesday (Lola Petticrew) e se aproxima para cessar sua dor. Tuesday, porém, vai na contramão do resto do mundo e decide usar seus últimos segundos para interagir com o bicho Morte e contar-lhe uma piada. A atitude inusitada desperta o interesse da arara, que se abstém momentaneamente de suas atividades para conhecer melhor aquela garota atípica, acabando por se afeiçoar à sua gentileza mesmo tendo como foco o cumprimento do dever fatídico. O filme poderia se limitar a ser apenas sobre essa interação e já seria um exercício de surrealismo existencialista interessantíssimo, mas ele vai além e agrega o contexto de luto antecipado vivido pela mãe de Tuesday, Zora, que não sabe a que se agarrar diante da evidente despedida que se aproxima, e que vive uma rotina de autoenganos para amenizar a própria dor.

Julia Louis-Dreyfus incorpora Zora, uma persona dúbia, cuja índole, apesar de aparentemente boa (isto é, em um juízo de caráter propriamente meu), não escapa de atitudes moralmente questionáveis. Coloco em xeque tanto a índole quanto a ética porque, dada a situação extrema e atípica para a maioria do público, é difícil condenar suas mentiras quando não se pode afirmar com plena certeza se, em seu lugar, algo seria feito de forma diferente. Em um exercício de empatia, não há como saber de que jeito reagiríamos em uma dinâmica emocional tão precária e um dilema de preservação tão forte quanto aquele que ela carrega ao fazer algumas escolhas difíceis e extremas – além de absurdas também. Ela assume o protagonismo do filme do meio em diante e, evocando um trabalho de perspectiva, se torna uma vilã mesmo sem ser necessariamente uma antagonista. Simultaneamente, ela é tão vítima da circunstância quanto Tuesday. Zora não é má, é apenas um reflexo sem máscaras do desespero que existe na humanidade.

Zora lida com a Morte com a mesma ferocidade daqueles que estão prestes a morrer, quando se dispõem, no caso, a lutar contra ela. Zora a enfrenta com um ressentimento abissal, como se fosse ela mesma a morrer – refletindo um sentimento que ecoa em uníssono quando o assunto é a perda de um filho, que é quando os pais sentem que morreram junto. As camadas de humanidade que o longa contempla, nos melhores e piores sentidos do termo “humanidade”, são de uma sensibilidade ímpar no cinema de 2024. O filme coloca a Morte, que se interpõe no miolo do roteiro, como uma necessidade cabal da condição humana. Tuesday não vai morrer porque alguém ou alguma entidade sobrenatural assim o deseja; ela vai morrer porque precisa morrer, porque é o único meio de sanar sua dor. Claro, permanece o luto da mãe, que tenta encontrar os próprios caminhos para lidar com o fato quando ele se consuma. E talvez, justamente por rememorar a finitude ao cinema que vive ressuscitando seus mortos, o filme se faça tão reflexivo. “Tuesday: O Último Abraço” está aí para nos lembrar como é ter uma história onde quem morre pode finalmente descansar em paz.

Vinícius Martins

Cinéfilo, colecionador, leitor, escritor, futuro diretor de cinema, chocólatra, fã de literatura inglesa, viciado em trilhas sonoras e defensor assíduo de que foi Han Solo quem atirou primeiro.

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