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“Tempo Suspenso”: comédia francesa retrata de forma leve as neuroses e paranoias que nos afetaram durante a pandemia | 2025

A pandemia de COVID-19 ainda é um fenômeno recente. Somente o distanciamento histórico poderá mensurar o seu impacto em nossas vidas. Obras literárias serão escritas, peças teatrais serão montadas e, claro, filmes serão produzidos tendo o coronavírus como pano de fundo de suas tramas. É natural; crises sanitárias de ordem global, ao longo da história, passam a constituir o imaginário, influenciando diretamente a cultura.

No caso do cinema, fenômenos assim costumeiramente inspiram a ficção científica a criar histórias de tom catastrofista e narrativas pós-apocalíticas. Normalmente são grandes produções, repletas de efeitos visuais e elenco estrelado. Os elementos que constituem o filme são tão grandiosos quanto o fenômeno que a obra está retratando. Esse é o caminho mais convencional, sobretudo em produções hollywoodianas.

Não é o caso de “Tempo Suspenso”, do cineasta francês Olivier Assayas:  o número de mortos, que progredia em escala geométrica, os impactos sobre a economia, a postura irresponsável de certos líderes mundiais, as fake news, a captura da doença pela polarização política, nada disso passa pelas lentes de Assayas. Sua aposta – feliz – consistiu e em fazer um retrato íntimo e individual dos efeitos que aquele período de confinamento nos causou.

A sinopse traz Paul, um diretor de cinema, e seu irmão Etienne, um jornalista musical, que estão confinados na casa da família, no interior da França, junto com suas parceiras Morgane e Carole, durante a pandemia.

O plano panorâmico inicial e narração em off de paul parece apenas um registro documental de memórias familiares. À medida que a trama avança, porém, logo percebemos que essas lembranças ganham uma dimensão mais humana, afetando os personagens, fragilizados emocionalmente pelo confinamento. Com esse olhar, Assayas relembrou que o fortalecimento dos laços familiares foram fundamentais para enfrentar aqueles dias de medo e incertezas.

As paranoias, as neuroses e o estresse também não escaparam de sua análise. Paul, o protagonista, encarnou o avatar das pessoas que cumpriam de forma obsessiva os protocolos sanitários; já Etienne é o sujeito que nitidamente ficou incomodado com o tolhimento de sua liberdade. Esse antagonismo de percepções inevitavelmente leva ao conflito, que é tratado de forma leve e bem-humorada.

“Tempo Suspenso” é uma comédia de costumes que nos faz olhar no espelho e relembrar dos mais variados sentimentos que nos afetaram durante aqueles duros tempos de quarentena.

Vitor Pádua

Advogado que expia o juridiquês com a paixão pela fotografia e pelo cinema.

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