“Sex”: primeira parte de trilogia norueguesa discute a masculinidade no mundo contemporâneo | 2025

No século XXI houve um certo avanço nos debates acerca da construção do ideal da identidade de gênero e das consequências que suas imposições acarretam. A masculinidade, com isso, parece viver uma crise frente às expectativas que sociedades erguidas sobre um pilar cada vez mais frágil tendem a ressignificar. A febre audiovisual do momento, a minissérie “Adolescência”, exemplifica bem esse novo olhar ao apontar como um dos seus temas centrais a cultura dos incels, que representariam uma espécie de desdobramento por vias digitais de pensamentos e comportamentos condenáveis que sempre existiram em um mundo dominado por homens. Obra que também se coloca para debater o masculino contemporâneo, “Sex”, longa que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, busca uma ampliação desse conceito a partir da naturalização daquilo que sempre nos fez evoluir enquanto espécie: a curiosidade.
Primeiro tomo de uma trilogia idealizada por Dag Johan Haugerud, o longa inicia-se com uma conversa aparentemente banal entre dois amigos que trabalham numa empresa responsável por desentupir chaminés (algo bastante sugestivo, diga-se) em Oslo. Após um deles contar um sonho erótico que teve com David Bowie, o outro aproveita o caráter confessional do papo para relatar uma experiência sexual que teve com um cliente na tarde anterior. Do leve choque inicial provocado por essas revelações, passa-se de maneira bastante natural para o questionamento sobre a suposta gravidade dessas “infrações”, o que acaba fornecendo a confiança necessária para o compartilhamento delas com suas respectivas famílias. O roteiro vai promover, assim, uma série de diálogos nos quais serão procuradas e confrontadas as razões pelas quais esses homens de meia-idade teriam ferido a conduta que se espera de um “macho alfa” heterossexual com esposa e filhos.
E realmente a naturalidade parece ser o norte que determina a lógica de “Sex”. Para tal, a produção abusa de longos planos com discussões entre os personagens, procedimento que só encontra alguma oposição estética quando imagens da cidade ao som de jazz e sintetizadores ou em momentos esparsos nos quais uma câmera quase sempre fixa, dá lugar a fades e zooms abruptos, criando pontualmente uma estranha sensação de delírio. Mas, de fato, é o misto de trivialidade e franqueza com que as conversas se desenrolam o que mais chama a atenção no decorrer da trama – a destacar as cenas em que o personagem interpretado por um excelente Jan Gunnar Røise precisa responder às alfinetadas da esposa, alguém que tenta compreender se o ato cometido pelo marido corresponde a uma traição ao não.
Em “Sex”, um homem pode cantar num coral, pode falar abertamente na frente do filho adolescente – enquanto ele costura o figurino de uma apresentação – sobre um sonho íntimo com um ícone andrógino da música, e até mesmo se render ao desejo por uma pessoa sem se preocupar se ela é do mesmo gênero ou não. Embora abuse um pouco da verborragia na busca por uma veia despretensiosa, as situações que sua narrativa apresenta formam uma provocativa incursão por novos e menos rígidos caminhos pelos quais modelos comportamentais masculinos de outrora podem avançar curiosos, abertos e sem medo.