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“Queer”: Luca Guadagnino adapta clássico LGBT de William S. Burroughs num misto de melancolia e fantasia | 2024

O cineasta italiano Luca Guadagnino (“Rivais” -2024) é um cineasta que sempre tem algo a dizer em seus trabalhos. Nada passa batido ao olhar apurado e clínico do realizador, seja em que gênero ele mergulhe. Em “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017), um romance tão solar quando melancólico, ele desfia a descoberta da sexualidade e do amor de um jovem rapaz sob os olhares ternos de um pai amoroso e compreensivo. Já em “Suspiria” (2018), Luca revisita o clássico horror de Dario Argento, o mestre do Giallo, em uma linguagem muito própria mas sem desrespeitar sua matriz.  Luca é um realizador que sempre tem algo a dizer e sabe fazer com uma genialidade que felizmente tem reaparecido em seus últimos trabalhos. E o melhor, sem plagiar seus próprios processos.

Em “Queer”, o realizador adapta o clássico LGBTQIA+ escrito por William S. Burroughs e inspirado em Adelbert Lewis Marker, um ex-militar da Marinha dos Estados Unidos, onde  acompanha a trajetória de William Lee um expatriado americano que vive na Cidade do México após ser dispensado da Marinha. Lee vive entre estudantes universitários americanos e donos de bares que, como ele, sobrevivem com empregos de meio período e benefícios do GI Bill, uma lei que auxiliou veteranos da Segunda Guerra Mundial. Em meio à vida boêmia da cidade e ainda lidando com o vício no alcoolismo, Lee conhece Allerton (Drew Starkey), um jovem por quem começa a sentir algo diferente, já que até então suas relações eram furtivas e baseadas em sexo.

Entre o realismo de “Até os Ossos” (2022) e a sensualidade do recém lançado e um dos queridinhos do ano “Rivais”, “Queer” traz outros elementos ainda não experimentados em sua cinegrafia, como a crueza retratada no microcosmo desse homem maduro, uma espécie de farrapo humano, buscando sexo e por vezes questionando a sexualidade dos outros. Guadagnino potencializa as agruras desse homem gay que vê os dias passarem sem qualquer ambição de mudança, não só pela despretensão e desinteresse com que passa os dias, assim como tudo que está à sua volta, como os cenários que retratam uma Cidade do México que soam, ao menos pra mim,  propositalmente fake, aumentando ainda mais nosso incômodo com esse personagem que segue se boicotando,  até  essa virada inesperada de chave chamada paixão.

“Queer” mostra um Daniel Graig que até então não conhecíamos, já que estamos acostumados a vê-lo em papéis de homens fortes e impregnados de masculinidade. Aqui ele se descola de todo e qualquer estereótipo do macho alfa e capta perfeitamente a persona de um homem maduro e gay, que no caso dele já perdeu o amor próprio, mas confia, ainda que de um jeito atrapalhado, no seu poder de sedução e persuasão. Sua performance possivelmente é o que a empreitada tem de melhor, tamanha a genialidade e versatilidade desse ator. Graig dá um tom vitimista ao seu personagem, que nos faz pensar o quão solitário pode ser o futuro de um homem gay, que muitas vezes se afasta da família e outras muitas vezes opta por viver uma vida baseada em sexo sem compromisso ao invés de formar sua própria família. Mas claro, isso nem sempre é uma escolha e sim um destino.

Depois de tanta crueza, e entre umas e outras licenças em tom poético, o filme mergulha definitivamente no fantástico quando Lee busca se curar do vício com a planta Yagé (mais conhecida como Ayahuasca). São nas alucinações de Lee onde Guadaginino usa e abusa do lúdico e de recursos visuais que transformam “Queer” em um novo filme. Destaco aqui a participação da incrível Lesley Manville, uma espécie de Xamã, responsável por orientar Lee em seus novos caminhos sensoriais. O novo filme do Guadagnino é um tanto menos atrativo do que seus trabalhos anteriores, mas por ser tão melancólico e monocromático, se torna atraente principalmente para aqueles que se sentem conectados aos dilemas de seu protagonista.

Rogério Machado

Designer e cinéfilo de plantão. Amante da arte e da expressão. Defensor das boas causas e do amor acima de tudo. Penso e vivo cinema 24 horas por dia. Fundador do Papo de Cinemateca e viciado em amendoim.

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