⚠️ VEJA OUTRAS CRITICAS DO PAPO EM NOSSO ACERVO (SITE ANTIGO).

ACESSAR SITE ANTIGO
PitacO do PapO

“Presença”: trama sobrenatural, sob a perspectiva de um espírito, conta com um final surpreendente | 2025

É no mínimo curioso que o diretor Steven Soderbergh, conhecido por pérolas do cinema independente como “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989), ou filmes oscarizados como “Erin Brockovich” (2000) e “Traffic” (2000), enverede por um enredo de terror sobrenatural como o de “Presença” (2024). Dirigido por ele e roteirizado pelo prolífico David Koepp (Jurassic Park), esta é a segunda parceria desta dupla em curto espaço de tempo; eles também fizeram “Código Preto” (2025), thriller de espionagem que, atualmente, está em cartaz nos cinemas com grande elenco. Diferente deste, “Presença” é um terror “Low budget” que custou apenas 2 milhões de dólares e já arrecadou 10,5 milhões de dólares mundialmente.

Na trama, a família Payne é formada pela mãe, Rebekah (Lucy Liu), o pai, Chris (Chris Sullivan), e um casal de filhos adolescentes, Chloe (Callina Liang) e Tyler (Eddy Maday), que mudam para uma casa no subúrbio. No entanto, desde o início do enredo, o público acompanha a história conturbada desta família sob a perspectiva, ou POV, de um fantasma que habita aquele imóvel: a tal presença a que o título da obra se refere. Nós, como espectadores, não sabemos as reais intenções daquela presença e nem se há algum fundo de maldade ou bondade nas tentativas daquele ser tentar se comunicar com os Payne. O que sabemos é que a família passa por um momento delicado com o casal vivenciando uma crise conjugal, Chloe enfrenta um luto devido à morte de sua melhor amiga e é negligenciada por Rebekah, que, por sua vez, tem uma clara preferência por Tyler, o filho campeão de natação.

À medida que a história avança, a presença vai capturando fragmentos das histórias daquele nucleo familiar ao se deslocar de um cômodo para o outro. Esta é a forma como o público adquire o contexto daquelas relações; bem como, Soderbergh utiliza recursos estilísticos para demonstrar angústia e desespero quando o espírito tenta deliberadamente se comunicar ou interferir nas condutas das personagens. Apenas a filha Chloe, sensitiva, tem a capacidade de notar a presença transitando pelos cômodos da casa.

Pelo fato da família vibrar constantemente com energia negativa, seja pela relação pesada entre Rebekah e Chris, ou pelo drama do luto vivenciado por Chloe, o roteiro vai construindo um quebra-cabeça de elementos que entregam as possíveis razões para aquela presença estar ali – e o público tem a interessante experiência de, aos poucos, descobrir a identidade e a razão daquela entidade interferir na dinâmica familiar dos Payne. O final é um daqueles desfechos que conseguem não só surpreender, como recontextualizam toda a história com um plot twist que faria um M. Night Shyamalan de outrora se orgulhar.

“Presença” não só é uma pequena joia pela proposta inovadora de explorar uma narrativa sob a perspectiva não usual do fantasma, mas também conta com algumas curiosidades que adicionam camadas mais interessantes ainda, como o fato de ter sido filmado em apenas 3 semanas, sem close-ups, e com pouquíssimos cortes, destacando planos sequencias que, ao mesmo tempo, adicionam tensão e realismo no formato adotado por Soderbergh.

A parceria de Soderbergh e Koepp, neste ano, representa uma reciclagem bem-vinda na filmografia do muso do cinema independente, após fiascos recentes como “Magic Mike: A última dança” (2023) ou “A Lavanderia” (2019). Com dois filmes bem conceituados pela crítica, “Código Preto” e este “Presença”, o público tem a oportunidade de conferir boas histórias, alavancadas pelo talento de Koepp como roteirista, e a direção precisa de Soderbergh, realizando ótimos experimentos estilísticos como diretor em ambas as obras.

Marcello Azolino

Advogado brasiliense, cinéfilo e Profissional da indústria farmacêutica que habita São Paulo há 8 anos. Criou em 2021 a página @pilulasdecinema para dar voz ao crítico de cinema e escritor adormecido nele. Seus outros hobbies incluem viagens pelo mundo, escrever roteiros e curtir bandas dos anos 80 como Tears For fears, Duran Duran e Simply Red.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo