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“Onda Nova”: cópia em 4K celebra longa que desafiou a arbitrariedade da ditadura militar e jogou a caretice pra escanteio | 1983

Em um dos vários momentos inusitados de Onda Nova, vemos pendurado na parede da sede do Gayvotas Futebol Clube a foto do então presidente General João Figueiredo enquanto o diretor da agremiação passa um pito no treinador e na capitã do time por conta das práticas pouco condizentes com aquele “ambiente familiar”. Ali, o longa-metragem dirigido por José Antonio Garcia e Ícaro Martins deixava evidente sua verve contestadora e sua intenção de vencer por goleada o sempre perigoso adversário do moralismo hipócrita.

Lançado no ainda tímido clarear dos refletores em 1983, quase no fim dos insistentes anos de chumbo, o projeto tornou-se marcante por ter demonstrado muita coragem ao contar a história de um time de futebol feminino quando isso ainda era considerado por muitos uma aberração que revelava o “comportamento masculinizante” de muitas mulheres. Só que não bastava para os realizadores tratar esse tema de uma maneira convencional, o que seria algo bem próximo de um broxante 0 x 0. Então, eles resolveram escrachar e fazer desse nada ortodoxo escrete um símbolo do desejo de liberdade que pulsava nos corpos daquela juventude. Não à toa, o arremedo de trama que se constrói não está tão interessado num ideal de fluidez narrativa, mas sim em mostrar da forma mais saliente possível as peripécias – sobretudo as sexuais – de um grupo de mulheres avessas a rótulos.

Diante do caráter episódico das situações expostas em tela, o melhor mesmo é se deliciar com a vulgaridade maravilhosa de pérolas como “Fui dar para um pedreiro” ou “Eu queria que você me descabaçasse”, que ainda acabam se conectando através de uma aparente aleatoriedade com referências a Fassbinder e a Walter Hugo Khouri, ou a pontas de jogadores da época como os corintianos Wladmir e Casagrande – este, aliás, demonstrando talento dentro de outras quatro linhas. Além disso, é difícil resistir a todo aquele clima oitentista que é esfregado sem roupa de baixo na cara do espectador através dos cabelos, das roupas, dos pelos pubianos, do carro conversível rosa de uma Carla Camurati esbanjando beleza e, claro, de uma trilha sonora com vários hits de um período tenso para a classe artística brasileira – observe a antológica cena que traz Caetano Veloso pegando, entre outras coisas, um táxi.

Restaurado em belíssima cópia em 4K, “Onda Nova” é uma saborosa salada temperada com doses afrodisíacas de despudor. Obra que, se não goza do prestígio que os filmes mais rebuscados do Cinema Marginal ou da fama dos clássicos da pornochanchada, pode sim ser considerada uma campeã em nossa cinematografia por ter matado o medo no peito e conseguir falar sobre temas femininos relevantes como o direito ao aborto, exorcizar pelo caminho da galhofa e libertinagem vinte anos de repressão e, com isso, representar uma verdadeira bicuda na canela da caretice de quem prefere jogar de uniforme verde oliva e coturnos. Se o Gayvotas existisse hoje, eu seria sócio-torcedor!

Alan Ferreira

Professor, apaixonado por narrativas e poemas, que se converteu ainda na pré-adolescência à cinefilia, quando percebeu que havia prendido a respiração ao ver um ônibus voando em “Velocidade Máxima”. Criou o @depoisdaquelefilme para dar vazão aos espantos de cada sessão e compartilhá-los com quem se interessar.

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