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“Oeste Outra Vez”: faroeste à brasileira devora mitos sob o sol do sertão | 2025

A máxima “Só me interessa o que não é meu”, presente no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, publicado em 1928, permanece relevante quase um século depois. Nele, Oswald disserta sobre a essência da antropofagia cultural: a transformação do estrangeiro em matéria-prima para o surgimento de algo autêntico, não como mera cópia, mas como recriação crítica e original. “Oeste Outra Vez” incorpora com precisão essa lógica ao se apropriar dos códigos e simbologias do faroeste — gênero clássico e norte-americano por excelência — para construir uma jornada estética que, embora dialogando com o cânone, se enraíza no sertão brasileiro.

Ambientado no sertão de Goiás, acompanhamos Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana), dois homens amargurados e abandonados pela mesma mulher. Dessa história nasce uma rivalidade intensa e destrutiva, o que os leva a um confronto brutal, carregado de frustração, melancolia e violência.

Dirigido e roteirizado por Erico Rassi, o filme se desenvolve em um território estético e narrativo profundamente marcado por uma brasilidade ora melancólica, ora brutal. A iconografia clássica do western — os duelos, as paisagens áridas, o pistoleiro solitário, a tensão entre civilização e barbárie — é transposta para um contexto nacional, estabelecendo um vínculo visceral com o sertão e suas contradições. Essa operação de deslocamento e ressignificação é, por definição, antropofágica: o filme não se limita a reproduzir os códigos do gênero como pastiche ou homenagem, mas os digere para recombiná-los com componentes do cinema brasileiro contemporâneo, socialmente atento e formalmente inventivo.

A violência, um dos aspectos mais provocativos, é articulada por um elenco inteiramente masculino. A obra subverte os arquétipos tradicionais do masculino associados ao faroeste e propõe um olhar mais introspectivo: seus personagens performam uma virilidade que os conduz, paradoxalmente, à extrema fragilidade emocional e afetiva. Incapazes de lidar com seus próprios sentimentos, encontram na brutalidade uma forma torta de comunicação.

Chama atenção também a ausência da rudeza verbal comumente atribuída aos personagens desse universo. Homens de fala simples e modos por vezes antiquados, expressam-se com uma contenção inesperada, exceto em momentos de confronto. Nem mesmo os palavrões, esperados em um ambiente masculino e hostil, ganham ênfase. Esse silêncio denso acentua o colapso de um modelo viril esvaziado, e isso se aplica a todos eles. Sem exceção.

Em “Oeste Outra Vez”, a antropofagia não é teoria — é banquete! Cada elemento é servido à mesa não para ser reverenciado, mas devorado, temperado com poeira do sertão, afetos truncados e silêncios pesados. O filme mastiga mitos, engole arquétipos e regurgita um prato novo, estranho e familiar ao mesmo tempo, onde a brutalidade vira linguagem, a masculinidade se desfaz em farelos e o território deixa de ser fundo de cena para se tornar carne viva. Nesse festim, nosso cinema não pede licença: ele come com as mãos.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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