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“O Mistério da Lixeira”: filme é obra-prima que celebra a diversidade e a riqueza do cinema indiano | 2024

Anagnórise, termo derivado do grego, é um conceito central na tragédia clássica. Refere-se ao momento em que um personagem descobre uma verdade essencial sobre si mesmo, desencadeando mudanças drásticas na narrativa.  Esse recurso dramático é comumente associado a reviravoltas na trama e ao despertar emocional do público. O maior exemplo é o clássico “Édipo Rei”, de Sófocles, no qual Édipo descobre sua verdadeira identidade e o terrível destino que o cerca.

Embora a anagnórise tenha desempenhado um papel fundamental na dramaturgia, seu uso no cinema contemporâneo é menos frequente. Muitas narrativas atuais optam por estruturar mistérios por meio de pistas sutis, envolvendo o espectador em uma experiência quase “gamificada” de descoberta gradual. Esse método, no entanto, difere da anagnórise, cujo impacto depende do choque emocional de uma revelação inesperada no clímax da história, em vez de se concentrar apenas na satisfação intelectual do público. Felizmente, ainda existem exceções. Entre elas, “O Mistério da Lixeira”, uma pérola escondida no catálogo da Netflix que exemplifica com maestria a força desse dispositivo dramático.

Após ter seu bem mais precioso roubado, Mahajara (Vijay Sethupathi) recorre à polícia em busca de ajuda. Inicialmente, seu pedido é tratado com desdém, mas os investigadores logo percebem que o caso é muito mais intrigante do que aparenta.

Com uma premissa trivial, “O Mistério da Lixeira” parte de um ponto comum, mas surpreende ao explorar caminhos inesperados. Essas reviravoltas, embora ancoradas em clichês, são habilmente trabalhadas, provando que o simples não é sinônimo de superficial, assim como o complexo nem sempre garante qualidade. A simplicidade narrativa não reduz a carga dramática; pelo contrário, amplifica sua eficácia. Sem recorrer a subtextos ou figuras de linguagem, o filme estabelece uma conexão objetiva e imediata com o público.

A estrutura narrativa não linear é outro trunfo fundamental. Sem recorrer a datas nos intertítulos ou alterações na paleta de cores para distinguir passado e presente, a trama é conduzida de maneira fluida e coesa. Essa abordagem não subestima a inteligência do espectador, além de integrar as idas e vindas temporais como parte essencial da construção do suspense, sempre com o objetivo de potencializar o impacto emocional. As cenas de ação são altamente estilizadas, embora não alcancem o nível de extravagância visto em “RRR”. Ainda assim, há uma intenção clara de espetacularizar determinados momentos, afastando-se propositalmente de um realismo mais rígido. Curiosamente, a fotografia, em vários trechos, flerta com essa estética realista, criando um contraste interessante.

Com 11 línguas oficiais e um vastíssimo território de tradição milenar, a Índia consolidou-se como um dos polos cinematográficos mais ricos e diversos do mundo. Folhear um livro sobre a história do cinema sem encontrar referências a suas impressionantes contribuições é impossível. Embora seja comum associar o cinema indiano a Bollywood, sua indústria vai muito além, abrangendo produções regionais em línguas como tâmil, telugo, malaiala e bengali, entre outras. “O Mistério da Lixeira”, por exemplo, é uma obra que foge dos estereótipos de Bollywood. Dois anos após o estrondoso sucesso de “RRR”, a plataforma vermelhinha nos presenteia novamente com um dos melhores filmes do ano — uma obra que, sem dúvida, merecia muito mais reconhecimento.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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