“O Intruso”: novo filme do cineasta Bruce LaBruce é o mais ousado de sua carreira | 2025

Na cena inicial de “O Intruso”, uma mala surge boiando às margens do Rio Tâmisa em Londres enquanto ouvimos um discurso proferido provavelmente por uma autoridade: “Devemos estar loucos como nação, para permitir o fluxo de forasteiros tão perigosos (…). A lei de migração ilegal permitirá deter os barcos que trazem esses delinquentes para nossas costas”. O texto segue dizendo que a lei dever ser radical com esses “intrusos”, e impedi-los de adentrar os limites do país.
Quem recolhe essa mala da água é justamente um homem em situação de rua, que mora em uma cabana às margens do famoso rio em Londres. Quanto ao conteúdo da mala, prefiro deixar como fator surpresa para quem for assistir o novo filme de Bruce LaBruce (“Gerontophilia” – 2013), que chega essa semana aos cinemas. O cineasta canadense é conhecido por tocar em temas polêmicos, por vezes voltados ao público lgbtqiap+, mas dessa vez, ainda que seu projeto se enquadre também no cinema queer, LaBruce leva a discussão para campos mais amplos, como a crítica à classe média e a política de imigração.
Na trama, um refugiado (Bishop Black) é acolhido por uma tradicional família de classe alta e esse ‘visitante’ passa então a viver na casa como funcionário. Sua presença, no entanto, desencadeia uma série de encontros íntimos e transformadores com cada membro da família, abalando as convenções sociais e emocionais que sustentam suas vidas. Paralelamente, descobre-se que ele é apenas um entre vários homens idênticos espalhados por Londres, todos disfarçados sob diferentes identidades. Esse estranho não apenas provoca desejos ocultos, mas também serve como um catalisador para uma espécie de despertar espiritual e social, permitindo que essa família abastada redefina seus conceitos de uma maneira bastante radical.
‘Faça amor, ele é revolucionário. Não faça guerra, ela é colonialista’. Entre tantas divagações ao longo da projeção, LaBruce justifica sua narrativa política com muito sexo explícito, nus frontais, cenas de incesto e outras sequências que chocam até o mais devasso espectador. O cineasta usa de sua habitual linguagem transgressora para discutir imigração ilegal (transformando o misterioso protagonista numa espécie de extraterrestre), a crise dos refugiados, xenofobia e desigualdade social. Algumas iniciativas me soaram muito exageradas e com a função única e exclusiva de querer ‘causar’. Ainda que tenha um pensamento bastante vanguardista e liberto de preconceitos, fica explícito que essa mistura de ousadias se perde em alguns momentos.
De toda forma, para quem adora o cinema do realizador, “O Intruso” pode ser o prato mais farto que um dia LaBruce já serviu. O ‘banquete’ da vez é bem variado e cheio de surpresas… se é que você me entende. Por hora o que dá pra adiantar, que uma vez à mesa, LaBruce oferecerá um cardápio indigesto pra muitos. É válido o aviso pois uma vez visto não tem volta, até porque botões de desver não existem.