“O Dia da Posse”: Allan Ribeiro abre intimidade em filme experimental rodado na pandemia | 2024

Cinema é experimento. Cinema é experiência. São infinitas as visões de mundo que o cinema é capaz de mostrar. Aqui, o cineasta Allan Ribeiro mistura ficção e documentário, política, pandemia e vida pessoal em um momento que ainda nos entregará algumas produções: a pandemia e como isso influenciou a vida e o comportamento de milhares de pessoas. O isolamento motivou muitas tomadas de posição, sobretudo no Brasil, já que na ocasião tínhamos um governo que gerou alguns desconfortos com quase toda a comunidade científica e parte da população por descredibilizar a ciência.
Nesse projeto iremos conhecer Brendo Washington, um jovem sonhador e mais um dos milhões de brasileiros que, durante a pandemia do COVID-19, aderiu ao isolamento social. Dividindo um apartamento no Rio de Janeiro com Allan, ele observa os hábitos dos vizinhos pela janela, organiza reuniões de estudo virtuais com os colegas de faculdade e se dedica aos afazeres da casa. É neste contexto de atividades rotineiras, aparentemente banais, que as ambições dele transbordam na tela. Porque, embora o cenário no mundo seja feroz, não faltam sonhos ao nosso protagonista, que quer ser médico e advogado.
Brendo tem fetiches com discursos de posse e da influência que eles podem ter na vida das pessoas. Não raras vezes Allan pede a Brendo declarações acerca de diversos assuntos, desde a posse de poder em um grande cargo público até um discurso de vencedor de reality show, como o Big Brother Brasil. Todo o seu texto na produção de Allan Ribeiro, carrega uma pá de sonhos e projetos pro futuro. O otimismo é o que conduz a vida desse jovem de vinte e poucos anos, que assim como muitos, anseiam e têm a certeza que dias melhores estavam por vir. A noção de esperança e um futuro promissor aparece em cada palavra de Brendo.
“O Dia da Posse” é um projeto feito à poucas mãos, que mescla o dia a dia de uma família que está cerceada pelas novas condições sanitárias impostas pelo destino. Tem cara de experimental, mas também tem cara de diário, e é se valendo disso que Allan nos leva pela mão e sacia nossa curiosidade, não só acerca do que está à sua volta como também pelos causos envolvendo sua família. Aos mais acostumados com formatos regulares e com ritmo, pode ser que não se interessem muito pela proposta do realizador, mas cientes de que tudo é política, o filme poderá despertar debates interessantes acerca de futuro, não só no individual mas também no coletivo. O longa de Allan Ribeiro passou pelo Festival do Rio em 2021 e chega essa semana no circuito exibidor.