⚠️ VEJA OUTRAS CRITICAS DO PAPO EM NOSSO ACERVO (SITE ANTIGO).

ACESSAR SITE ANTIGO
PitacO do PapO

“O Brutalista”: saga épica de imigrante judeu é uma experiência arrebatadora

Dirigido e roteirizado pelo Brady Corbet (“Vox Lux: O Preço da Fama”), “O Brutalista” é uma daquelas sagas cinematográficas que permanecem na sua mente após o término da sessão. Filmado no formato VistaVision, que permite uma formatação na tela em widescreen com mais resolução, com 215 minutos de duração e um intervalo de 15 minutos entre um ato e outro no enredo, o filme foi feito para ser apreciado nas salas de cinema. É um daqueles projetos ambiciosos idealizados pelo diretor, que mesmo não tendo uma filmografia sólida em sua carreira, conseguiu o feito de produzir uma história épica desta envergadura com um elenco absolutamente impecável.

Na trama, acompanhamos a chegada de Lászlo Tóth (Adrien Brody), um arquiteto húngaro judeu que foge do holocausto para imigrar nos Estados Unidos. A primeira cena claustrofóbica e caótica de Lászlo saindo das instalações escuras do navio e avistando a Estátua da Liberdade filmada de cabeça para baixo com um impacto  visual potencializado pela trilha sonora grandiosa composta por Daniel Blumberg é de arrepiar. Lászlo recebe abrigo de seu primo, Attila (Alessandro Nivola, ótimo), que administra uma loja de móveis com sua esposa na Filadélfia. Lászlo é afetado pelos fantasmas do holocausto, o trauma e a angústia de saber que sua esposa, Erzsébet (Felicity Jones), e sua sobrinha,  Zsófia (Raffey Cassidy), ainda estão na Europa em Campos de concentração. Lászlo acaba tendo que migrar para a construção civil após auxiliar seu primo num projeto desastroso de construir uma sala de leitura para um ricaço que decide não pagar pelo serviço.

Depressivo e viciado em heroína, Lászlo é resgatado pelo mesmo ricaço que deu tombo nele e no primo, o magnata e empresário Harrison Van Buren (Guy Pearce). Buren se impressiona com o talento de Tóth ao descobrir que este era um arquiteto húngaro renomado em sua terra de origem e decide comissiona-lo para construir uma obra modernista que funcionaria como um memorial e instituto cultural em um de seus terrenos. A partir daí,  acompanhamos a relação ambígua entre Lászlo e Van Buren e como o desequilíbrio de status social que ambos estão inseridos traz custos pessoais irreparáveis para o elo mais fraco. Quando Erzsébet e Szófia conseguem enfim imigrar para os EUA e passam a morar junto a  Lászlo, enquanto este executa a obra faraônica de Van Buren, o filme toma outra guinada e inaugura o segundo ato após a intermissão de 15 minutos.

Adrian Brody entrega uma composição memorável como Lászlo, é seu melhor papel desde “O Pianista” (2002), obra que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator em 2003. Em um mundo justo, Brody deveria ser laureado novamente com outro Oscar por sua interpretação contida de um homem sombrio, com traumas e orgulho ferido pela perseguição nazista aos judeus. Guy Pierce, ator que sempre teve altos e baixos em sua carreira, tem a chance de compor um Van Buren que é magnético, esbanja classe e altivez, mas que tem o costume de comprar as pessoas e tratá-las como commodities. Já Felicity Jones está incrível como Erzsébet, a esposa de saúde fragilizada e de personalidade forte de Lászlo. Ela é um respiro no enredo. Os três atores estão fenomenais no filme, o que sabiamente a Academia soube reconhecer ao indicá-los ao Oscar por suas performances.

As construções e projetos arquitetônicos de Lászlo são visualmente incríveis, na história inclusive descobrimos que ele teve formação na Bauhaus art school. A cena em que Van Buren procura Lászlo para oferecer a oportunidade de construir seu instituto e apresenta para ele fotos das obras renomadas que Tóth construiu na Hungria e este se emociona é de arrepiar. Todos os diálogos entre Lászlo e Van Buren são extensos e bem construídos no roteiro impecável de Corbet e sua parceira Mona Fastvold.

Outro elemento marcante do filme são as elaboradas composições musicais do  inglês Daniel Blumberg, um misto de peças épicas e grandiosas que fundem sons contínuos de construção, de uso de ferramentas, numa fusão que lembra muito o mesmo princípio das músicas de “Dançando no Escuro” de Lars Von Trier.

Com suas 10 indicações ao Oscar desse ano, “O Brutalista” talvez seja o projeto  mais sólido da lista de Melhor Filme e o mais merecedor dos 10 indicados. É uma experiência arrebatadora visualmente, com um enredo bem construído, um exercício de fazer cinema de qualidade com um baixo orçamento e que conta com um trio de atores absolutamente brilhantes em suas composições. É cinema de gente grande!

Marcello Azolino

Advogado brasiliense, cinéfilo e Profissional da indústria farmacêutica que habita São Paulo há 8 anos. Criou em 2021 a página @pilulasdecinema para dar voz ao crítico de cinema e escritor adormecido nele. Seus outros hobbies incluem viagens pelo mundo, escrever roteiros e curtir bandas dos anos 80 como Tears For fears, Duran Duran e Simply Red.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo