⚠️ VEJA OUTRAS CRITICAS DO PAPO EM NOSSO ACERVO (SITE ANTIGO).

ACESSAR SITE ANTIGO
PitacO do PapO

“O Bastardo”: Filme estrelado por Mads Mikkelsen retrata luta de homem que deixou uma marca indelével na história da Dinamarca | 2024

Histórias grandiosas de conquistas individuais costumam ser marcantes porque exaltam características humanas universais. A Odisseia, de Homero, e Os Lusíadas, de Luís de Camões, são exemplos de poemas épicos que exploram o espírito desbravador do homem, tratando de temas como luta, sacrifício e obstinação. Em tempos contemporâneos, Hemingway, com sua belíssima fábula O Velho e Mar, nos contou a história de um simples pescador que na solidão do alto-mar lutou pela sobrevivência com inabalável confiança na vida. Todas essas obras têm em comum a capacidade do homem de prevalecer sobre as intempéries; por isso são consideradas clássicas e seguem atravessando o tempo, permeando o imaginário popular universal.

O cinema, como não poderia deixar de ser, também sabe muito bem contar esse estilo de história, seja bebendo de fontes literárias consagradas, ou retratando eventos que mudaram os rumos de nações inteiras. Esse é o caso de “O Bastardo”, drama épico-histórico dirigido por Nikolaj Arcel e estrelado por Mads Mikkelsen (“Drunk”, 2020). O filme mergulha nas profundezas da Dinamarca da `Século XVIII para contar a história do Capitão Ludvig Kahlen (Mikkelsen), um herói de guerra orgulhoso, mas empobrecido, que embarca em uma jornada para colonizar a Jutlândia, uma terra considerada selvagem e aparentemente inóspita. Determinado a fundar uma colônia em nome do Rei, Kahlen enfrenta não apenas os desafios da natureza, mas a ameaça do nobre Frederik De Schinkel.

O longa inicia apresentando Kahlen, sozinho, vivendo em um albergue para veteranos de guerra. Ele está diante do espelho, vestindo altivamente seu velho e puído uniforme militar, com a finalidade de conseguir uma audiência com o Rei da Dinamarca. Ao chegar à Corte, ele apresenta suas credenciais aos membros do gabinete real e clama por uma autorização para formar uma colônia em nome do Rei, na região do Urzal, e, caso tenha êxito, lhe seja concedido um título de nobreza. Ao ouvirem a sua pretensão, os burocratas riem com desdém e questionam sua sanidade, já que aquele lugar é um inferno gelado, inapropriado para qualquer tipo de plantação. Kahlen é dispensado sem conseguir a sua autorização. Desolado, ele deixa o gabinete, mas antes que saia, os burocratas reúnem-se e veem naquele pedido despropositado uma possível chance de enriquecer às custas da monarquia, que àquela altura era conduzida por um Rei fraco, o que favorecia toda sorte de conspirações políticas.

De posse de sua autorização, Kahlen dirige-se sozinho para o Urzal. Vivendo em um casebre em condições precárias, ele inicia a sua dura jornada de aragem da terra, porém logo percebe que as forças inclementes da natureza exigirão um esforço hercúleo para fazer daquele solo um ambiente ideal para o cultivo. Sua única mão de obra é formada por um padre e um casal de fugitivos, acusado de atentar contra os interesses do juiz distrital nomeado pelo Rei, o nobre Frederik De Schinkel.

Ao descobrir que Kahlen obteve autorização para colonizar o Urzal, Schinkel o convida até o seu castelo para informá-lo de que aquelas terras são de sua propriedade e propõe um acordo ao capitão para que ele deixe a região, mediante o pagamento de uma generosa compensação financeira. Kahlen não aceita o acordo porque tinha a lei ao seu lado. A partir de então, o veterano terá em seu encalço um inimigo cruel e poderoso.

O Bastardo é filme que contrapõe um homem digno, que acredita nas tradições da monarquia, àqueles que a corromperam. Os vícios morais da nobreza estão representados nos burocratas conspiradores, que se aproveitam das boas intenções de um homem honrado para colocar em prática seus planos políticos atentatórios aos interesses da coroa. Já O personagem Frederik Schinkel, brilhantemente interpretado pelo ator Simon Bennebjerg, encarna a figura de um nobre mimado e sádico, consciente de seu status, que não irá tolerar que um plebeu de linhagem distante ameace seus privilégios hereditários. O diálogo inicial entre Schinkel e Kahlem revela sem rodeios o caráter torto e a personalidade psicopata desse personagem, quando afirma ao capitão que a vida é baseada no mais absoluto caos, e que mesmo com a autorização do rei, a sua condição de nobre influente poderia fazer da lei letra morta.

Mesmo que se trate de um evento histórico, uma observação mais arguta faz logo perceber que Nikolaj Arcel, que também assina o roteiro do longa, construiu uma linha narrativa que retrata a luta do indivíduo contra as estruturas de poder. A obstinação de Kahlen em concretizar o seu propósito, enfrentando intempéries naturais e interesses classistas mesquinhos, o colocam numa posição absolutamente precária. Sua motivação e seus sacrifícios são o símbolo maior de que a força do indivíduo é capaz de dar início a movimentos que podem mudar o destino de nações.

A direção segura de Arcel equilibra o clima de tensão com momentos de ternura, sobretudo nas interações entre Kahlen e a criança órfã que ele adota. Destaque também para a belíssima fotografia, que faz muito bom uso da luz natural. E Mads Mikkelsen, mais uma vez, entrega uma autuação poderosa e digna de prêmio. “O Bastardo” é um filme que se apoia na História para trazer uma mensagem de confiança na grandeza intrínseca do homem.

Vitor Pádua

Advogado que expia o juridiquês com a paixão pela fotografia e pelo cinema.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo