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“Ninguém Sai Vivo Daqui”: Filme retrata o cotidiano do hospital Colônia, palco de um dos maiores crimes da história do Brasil | 2024

O gênero no cinema, entre outras funções, estabelece imediatamente um horizonte de expectativas. Como exemplo temos o terror que busca o medo e a comédia, o riso. Contudo, um elemento que dialoga profundamente com essa perspectiva é o “baseado em fatos”. Nesse contexto, não se trata de distinguir entre ficção e não-ficção, mas sim de entender que tipo de autoridade será apresentada em tela. Referir-se a acontecimentos como fatos históricos confere à narrativa uma dose extra de cuidados, especialmente do ponto de vista ético. Ainda que seja difícil definir regras para algo tão subjetivo, um erro comum é a espetacularização de traumas coletivos ou da dor alheia. Felizmente, “Ninguém Sai Vivo Daqui” não comete esse erro, embora também não ofereça a real dimensão dos acontecimentos.

O Hospital Colônia de Barbacena ficou conhecido pelos maus-tratos aos pacientes, com estimativas de 60 mil mortes desde sua fundação em 1903 até meados dos anos 1980. Para dar rosto a essa tragédia e criar um recorte ficcional que sintetize tamanha problemática, “Ninguém Sai Vivo Daqui” concentra-se na história de Elisa (Fernanda Marques) e nas pessoas ao seu redor. Dentre os coadjuvantes, destaca-se a personagem interpretada por Rejane Faria, uma mulher negra, ex-empregada doméstica, internada por mais de 30 anos e que teve seu filho recém-nascido tirado de seus braços. Em contraste, Augusto Madeira interpreta um guarda de maneira simplista e caricata, concentrando nele todo o “mal” possível, o que resulta em uma representação rasa e contraproducente. Já Elisa transmite uma poderosa sensação emotiva, e sua confusão mental inicial torna o mistério em torno da internação extremamente angustiante. No entanto, uma vez revelada a razão de sua ida, a narrativa se resume em acompanharmos uma verdadeira via-crúcis.

O local, cujas fotos de arquivo denunciam a superlotação e a falta de higiene, é retratado no longa de maneira curiosamente asséptica e o número de personagens, incluindo figurantes, sequer preenche a tela. Existe uma estranha higienização de tudo que poderia ser polêmico, desde fluidos corporais (secreção nasal, suor, saliva, etc…) até mesmo sangue, com a fotografia em preto e branco reforçando essa “limpeza visual”. Os diálogos também são excessivamente afetados, com falas exageradamente marcadas e ensaiadas, o que distorce a percepção de estarmos presenciando um crime contra a vida de milhares de pessoas marginalizadas.

A história do Colônia deu origem ao livro “Holocausto Brasileiro”, escrito por Daniela Arbex, resultado de uma extensa e bem apurada investigação jornalística. Os relatos são impressionantes e os números chocam. Todavia, após assistir a “Ninguém Sai Vivo Daqui” nada em tela justifica o termo “Holocausto”; já a história de Arbex, sim. Além disso, uma omissão importante do filme foi o papel do Estado nessa tragédia. No longa, essas grandes questões são simplificadas e individualizadas, não proporcionando a dimensão do problema estrutural que tornou essa catástrofe possível.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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