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“Nickel Boys”: baseado em fatos, longa reconta história do reformatório que oprimiu e vitimou jovens negros por gerações | 2025

A forma e a representação no cinema são temas amplamente debatidos pela cinefilia, e um dos críticos e teóricos mais influentes nesse campo foi Claude Lanzmann. Em seu ensaio mais conhecido, no qual discute a representação do Holocausto, ele rejeita a reconstrução ficcional, argumentando que a encenação explícita do extermínio nos campos de concentração pode trivializar a tragédia ao transformá-la em espetáculo. Para Lanzmann, a dramatização e a ilusão de reencenação não apenas distorcem a realidade histórica, mas também conferem ao horror uma dimensão estética inadequada e, dependendo do enfoque adotado, podem até assumir um caráter de fascínio.

Dirigido por RaMell Ross, “Nickel Boys” revisita os horrores ocorridos na Florida School for Boys, uma instituição juvenil que operou por mais de um século e se tornou infame pelos abusos sistemáticos contra crianças e adolescentes. O filme não suaviza essas atrocidades, no entanto, sua abordagem se alinha à perspectiva de Lanzmann e outros teóricos ao preservar a gravidade dos acontecimentos sem recorrer a artifícios que estetizem a violência ou suscitem ambiguidades morais. O olhar do filme é preciso e contundente, afastando qualquer possibilidade de fetichização do sofrimento.

Inicialmente ambientada nos anos 1950, época em que as leis segregacionistas de Jim Crow atingiam seu auge, a trama acompanha Elwood (Ethan Herisse) e Turner (Brandon Wilson), dois jovens internos do chamado “Reformatório Nickel”, que forjam uma aliança para enfrentar os horrores do lugar. Apesar de terem visões de mundo opostas, eles precisam lutar incansavelmente para sobreviver em um ambiente regido pela brutalidade e injustiça.

O filme adota uma perspectiva não convencional em primeira pessoa, na qual a câmera se comporta essencialmente como os olhos de Elwood, alternando ocasionalmente para Turner. Essa escolha estilística não apenas intensifica a imersão na narrativa, mas também reforça a subjetividade da experiência dos personagens. Porém, como toda técnica narrativa pouco convencional, essa abordagem impõe desafios e limitações. Ao restringir-se a uma ou duas perspectivas, a narrativa abre mão da onipresença da câmera, já que nenhum personagem pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O filme, contudo, não encontra soluções plenamente eficazes para essa armadilha autoimposta, recorrendo a pequenos desvios que rompem com a proposta inicial. Em momentos pontuais, a abordagem se flexibiliza com diálogos em plano e contraplano ou com a alternância para a perspectiva de Turner, como se buscasse compensar as lacunas deixadas pela limitação do olhar de Elwood. Um exemplo evidente ocorre quando a mãe de Elwood o visita pela primeira vez, mas não pode vê-lo. Em vez de manter a restrição narrativa, o filme desloca a câmera para mostrar Turner interagindo com ela, traindo, assim, sua concepção original e revelando uma hesitação em levar a experiência subjetiva às últimas consequências.

Baseado no romance “The Nickel Boys” (Os Garotos de Nickel), de Colson Whitehead, vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção em 2020, o filme figura entre os indicados à categoria principal do Oscar 2025. Um reconhecimento mais do que merecido, embora, por ironia ou descaso, não tenha recebido a visibilidade que uma obra dessa magnitude exige.

Sabemos que premiações não são neutras, elas carregam mensagens. “Nickel Boys” dialoga diretamente com as realidades contemporâneas, evidenciando que a segregação racial, longe de ser um problema superado, persiste em políticas discriminatórias e na ascensão de movimentos neonazistas, que hoje se manifestam com crescente ousadia ao redor do mundo.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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