“Mufasa: O Rei Leão”: Filme se propõe a ampliar a savana com estética deslumbrante e roteiro tímido | 2024
Que bom que eu trouxe grilos

Quando “Han Solo: Uma Aventura Star Wars” chegou aos cinemas, em meados de 2018, muitos fãs da saga e do personagem eternizado pela performance de Harrison Ford questionaram o propósito da existência do projeto. Claro, uma expansão de universo é bem-vinda, de modo geral, mas existem diferenças nítidas de quando há algo a ser expandido e quando há o frio interesse monetário em engatilhar uma franquia (ou no mínimo uma trilogia) derivada. O filme solo de Han Solo veio para responder questões que ninguém perguntou, veio explicar mistérios que não pediam para serem esclarecidos, e veio solucionar problemas que não demandavam solução. Um nítido projeto caça-níquel. Olhando agora para “Mufasa: O Rei Leão”, sinto exatamente o mesmo que há quase sete anos.
O projeto, assim como o filme dirigido por Ron Howard que o estúdio encomendou para fazer dinheiro em cima de um nome querido pelos fãs, tem lá seus méritos e qualidades. Justifica a própria existência? Não, mas também não é uma ofensa tão grande à memória coletiva acerca do personagem-título. O que há aqui, assim como ocorre com a Marvel, é um furo no cânone justamente pela falta de diálogo entre as partes. Animação e live action (ou melhor dizendo, o 2D e o fotorrealismo animado) pertencem a um mesmo universo, pelo menos em tese. Muito sobre o passado de Mufasa e de Scar ficou bem estabelecido na série infantil “A Guarda Do Leão”, atualmente disponível no Disney+, que mostra um dos filhos de Simba tendo que lidar com a iniciação às responsabilidades reais e descobrindo coisas sobre o passado que, desse modo sim, ampliam a mitologia e estabelecem novas tramas com base em coisas que aconteceram muitos anos antes. O filme solo do Mufasa parece desconhecer tal seriado, ou no mínimo escolhe deliberadamente ignorá-lo. Uma pena, pois a animação é muito mais carismática e equilibrada do que esse novo filme, tanto para o público infantil quanto para o adulto.
O roteiro, apesar de seus pontos altos aqui e acolá, é pouco inspirado e não agrega tanto valor próprio; tudo de interessante que ele apresenta está acorrentado ao filme de 2019, dirigido por Jon Favreau, por conta de referências e conexões explicativas que, volto a dizer, ninguém perguntou como se deram. As músicas de Lin- Manuel Miranda seguem o nível de inspiração do roteiro, sem qualquer compromisso em ser algo marcante ou amplamente memorável, e estão ali apenas para dizer que houve músicas no filme. As interrupções de Timão e Pumba para “quebrar o gelo” perdem o timing e mais fazem desconectar do que sorrir. Eles tem carisma, mas a não-necessidade da maioria de suas cenas torna a dinâmica dos dois cansativa e tristemente ridícula. A interação entre os leões da história principal, que tem uma jornada como a bíblica de Moisés e Ramsés, tem os pontos mais altos do filme e só se valem como algum entretenimento por causa da revisão que o diretor Barry Jenkins fez na estética dos bichos.
Mais uma vez o nível gráfico dos efeitos é espetacular, mas agora com mais expressão facial para os outrora leões apáticos. Jenkins traz em sua bagagem de cinema interdependente um tom mais estilizado para compor a fotografia, com closes, lentes e ângulos que fazem o filme ter algum resquício de sua assinatura mesmo em meio às tantas interferências do estúdio. Poderia ser um filme excelente, mas faltou coragem e sobrou dependência da obra anterior, como se ao fazê-lo fosse necessário atender a uma check-list de explicações e easter-eggs. O roteiro simplifica tanto situações e personagens que, honestamente, o filme cansa por se tornar tão previsível. Mas tudo bem, como espetáculo cinematográfico ocasional e com um 3D bem aplicado, o filme no fim das contas faz valer o ingresso não por si, mas pela atmosfera a que ele evoca.
