“Memórias de um Caracol”: animação é uma fábula linda e agridoce sobre prisões autoimpostas | 2025

O ano de 2024 foi um período abundante em animações de alta qualidade e com temas variados. “Memórias de Um Caracol”, longa indicado ao Oscar 2025 de Melhor Animação, é uma dessas pequenas pérolas que traz uma infinidade de reflexões e uma beleza inusitada para nos deleitarmos.
A trama se passa nos anos 1970 na Austrália e acompanha os irmãos gêmeos Grace e Gilbert, eles têm uma vida marcada por tragédias que lhes deixam cicatrizes profundas. Depois da morte da mãe eles são criados pelo pai Percy, paraplégico e alcoólatra; quando ele também morre os irmãos são separados e enviados para lares adotivos diferentes e bem distantes. Gilbert, que é apaixonado por pirotecnia e sonha em ser artista de rua, vai morar com uma família fanática religiosa e cruel num lugar que mais parece uma prisão sinistra e sem saída. Já Grace se recolhe na sua obsessão por caracóis – é na sua coleção que ela encontra conforto pra tristeza profunda e ânsia de um dia poder reencontrar o amado irmão. Ela idolatra os caracóis pois queria ser um deles, viver numa casca protetora como se fosse o útero materno quentinho e inviolável que a protege de tudo, inclusive de ser feliz. Um dia ela conhece Pinky, uma idosa excêntrica e de alma livre que vai fazê-la enxergar que há vida fora de sua concha.
Mesmo distantes, Grace e Gilbert estão unidos pelo afeto como se tivessem um só coração; eles são excluídos e se sentem invisíveis aos olhos do mundo por serem fora do padrão e terem gostos peculiares, essas manias que servem de válvula de escape para tantas perdas e angústias existenciais. Os caracóis e o fogo dão sentido à vida dos irmãos, proporcionando pequenos momentos onde há um lampejo de alegria. Apesar de todas as agruras do roteiro, a animação nos ensina a ter resiliência e esperança, aprender com o que passou e a sempre andar para frente, pois essa é a direção da vida.
O diretor Adam Elliot, ganhador do Oscar 2004 pelo curta “Harvey Krumpet”, é mestre na “claymation”, que é um tipo de animação stop-motion que usa personagens e cenários de argila. Em “Memórias de Um Caracol” os personagens são rústicos e, na sua beleza imperfeita, com carinhas tristes e sempre despenteados, causam imediata empatia no público, que sente vontade de consolá-los e de dizer que a vida vale a pena ser vivida. A paleta de cores traz tons de cinza, marrom e preto, que remetem ao clima melancólico da história e ao perfil depressivo dos personagens.
A trama é narrada pela Grace para sua última amiga, a caracol Sylvia, e tem várias camadas: bullying, fanatismo religioso, fetiches, homofobia, exploração infantil e vícios. E todas essas questões convergem para a prisão, mesmo que inconsciente, que a protagonista se impôs a vida toda e que a impedia de ter uma vida plena.
Em um texto que viralizou nas redes sociais, o psicanalista Rubem Alves escreveu: “Sonhamos o voo mas tememos as alturas. Para voar é preciso enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Quiçá todos tivessem a coragem dos personagens de “Memórias de Um Caracol”, bravura para sair de suas gaiolas e se aventurar fora da zona de conforto, pois é fora delas que as coisas acontecem e é onde conseguimos evoluir.