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“Maníaco do Parque”: Filme retrata os crimes do serial killer Francisco de Assis Pereira que chocaram o Brasil nos anos 90 | 2024

Mais uma produção nacional do gênero true crime é lançada diretamente nos serviços de streaming. Estreou no dia 18 de outubro, “Maníaco do Parque”, filme baseado nos crimes cometidos pelo serial killer Francisco de Assis Pereira, que estuprou e matou 10 mulheres no Parque Ibirapuera, causando pânico e terror na cidade São Paulo no final dos anos 90. O longa foi exibido no Festival do Rio 2024 e agora está disponível no catálogo do Prime Vídeo.

Dirigido por Maurício Eça (“A Menina que Matou os Pais”) e estrelado por Giovanna Grigio, a trama acompanha Elena, uma jovem e ambiciosa jornalista, que para emplacar um artigo que mudará sua carreira entra em rota de colisão com um violento assassino: o Maníaco do Parque.

Elena é uma personagem fictícia; seu arco dramático parece ter sido criado para encarnar o arquétipo da ética jornalística, estabelecendo a postura ideal e/ou idealizada da imprensa na cobertura de casos criminais de grande repercussão social. Apesar de se vender como uma narrativa baseada numa histórica verídica, o filme utiliza o fato em si apenas como uma escada para tentar discutir outras questões. E essa é uma tentativa frustrada, porque ao escolher esse caminho o longa perde completamente seu foco.

Os crimes terríveis cometidos por Francisco de Assis Pereira ainda permeiam o imaginário popular; o seu ritual de escolha das vítimas e a crueldade com que as matou chocou o país inteiro. A decisão, portanto, de contar a história do assassino, do seu método e de seus crimes, naturalmente desperta o interesse do público em saber mais detalhes sobre a persona de um sujeito como esse e as suas motivações, como bem indica a cartilha do gênero true crime na literatura e no cinema de documentário. Esses elementos básicos, no entanto, infelizmente, não estão presentes na obra. Ao assumir um fio narrativo que compartilha o protagonismo entre um personagem real e outro fictício, o filme se transforma numa colcha de retalhos que não sabe para onde ir.

O ponto de vista escolhido para contar a história parece ter sido o de uma suposta reparação. A personagem Elena é uma jovem jornalista em início de carreira que trabalha numa redação de jornal nos anos 90, cuja maioria dos profissionais é formado por homens de meia idade. Com isso, constrói-se a ideia de que este é necessariamente um ambiente hostil para as mulheres, o que se comprova pela personalidade idiota e machista de todos os personagens masculinos com os quais ela contracena. Elena, então, tem como propósito expirar esse tipo comportamento ao seu redor.

O que se pretende discutir com esse discurso narrativo é uma espécie de tese segundo a qual o comportamento machista presente em todo o corpo social é, em última análise, uma das causas responsáveis por gerar sujeitos como Francisco de Assis Pereira. Ou seja, parte-se da premissa de que a personalidade torta, latente no ethos masculino, quando se manifesta, pode conduzir a uma psicopatia exterminadora de mulheres. O problema desse ponto de vista é que ele não possui base empírica e soa mais como uma construção forçada. Ao não estudar as motivações do assassino, perdeu-se uma belíssima oportunidade de explorar a complexidade e obscuridade da natureza humana, a partir de atos individuais praticados conscientemente por um psicopata.

Além disso, o pedagogismo pretensioso que o longa assume ao querer dar lições sobre como funciona a mente de um psicopata e como deve ser exercido o jornalismo incomodam porque não soam naturais e acabam fazendo pouco caso da inteligência do público. Talvez o único ponto positivo do filme seja a autuação de Silvero Pereira, que ao encarnar a pele do assassino real faz um belo trabalho, sobretudo na captura de seus trejeitos. Se tivesse em mãos um roteiro mais elaborado, certamente sua atuação poderia ter sido uma das melhores do ano.

Vitor Pádua

Advogado que expia o juridiquês com a paixão pela fotografia e pelo cinema.

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