“Loucos por Cinema!”: misto de documentário e ficção celebra a arte do Cinema l 2025

“Loucos por Cinema!” (2024) fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes 2024 e conjuga documentário e ficção num enredo que ora emociona, ao destrinchar a magia do cinema e o ato de assistir a filmes na tela grande, ora confunde, quando toma caminhos tangentes que não se comunicam com a real proposta do diretor francês Arnaud Desplechin de construir uma ode à Sétima arte. Em diversos momentos, a obra decola, como por exemplo ao debater sobre o que representa o ato de consumir cinema e o momento sagrado que temos ao nos expor a imagens em movimento numa sala escura, seja como um ritual solitário ou coletivo. Há também enfoques em idiossincrasias de cinéfilos, como aqueles que só assistem a filmes sentados em um determinado local na sala de cinema ou que só assistem a filmes de terror acompanhados de alguém, já que “Ter medo sozinho, não dá!” afirma uma cinéfila.
Em determinado momento do filme, uma série de cinéfilos falam sobre o impacto que o cinema exerce em suas vidas. Um senhor compartilha que “O cinema para mim é mais forte que minha vida! Vou ao cinema para viver…”. É interessante notar como uma arte pode ter significados tão diversos e tão singulares para diferentes pessoas no mosaico de depoimentos, fragmentos capturados aqui que nos lembram da força que os filmes têm de nos transportar e nos conectar com storytelling desde os primórdios da civilização.
O cinema do diretor Desplechin sempre foi celebrado por Cannes, e um de seus protagonistas, mais especificamente o do filme “Comment je me suis disputé…” (“Como eu Briguei por Minha Vida Sexual”, 1996, Paul Dedalus (Mathieu Amalric) reaparece em cena aqui sendo interpretado por atores em idades diferentes e em momentos em que o cinema desempenha ritos marcantes na vida do personagem. Na saga cinematográfica de Paul Dedalus, este é interpretado por Louis Birman (aos 6 anos de idade), Milo Machado-Graner (aos 14), Sam Chemoul (aos 22) e Salif Cissé (aos 30).
Da influência memorável da avó em levar seus netos pela primeira vez ao cinema até flertes juvenis no cinema como condutor de azaração e de romance na juventude, “Loucos por Cinema!” parece tecer uma costura de simbologias do que o ato de assistir filmes representa na vida das pessoas, usando Paul Dedalus como fio condutor para tal intuito.
O approach que Arnaud Desplechin escolhe para a sua obra parece oscilar entre o lírico e o historicamente informativo. Ele trabalha diversos elementos da cronologia do cinema e os entrelaça com o sentimentalismo envolvido com a sétima arte. No entanto, em diversos momentos, o filme parece tangenciar em elementos que inexplicavelmente parecem fora de contexto, como quando faz um breve aceno à carreira da atriz falecida Misty Upham (“Rio Congelado”) sem qualquer conexão com o tema geral da obra. Tais elementos enfraquecem o roteiro e a montagem do filme, criando mais distração do que alavancando o intuito principal do diretor e roteirista.
Um dos pontos altos do cine-documentário é quando usa cenas de filmes icônicos para exemplificar algum tema que discorre na tela, como quando utiliza uma cena chave de “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1999) para destrinchar um momento romântico revelador entre as personagens de Julia Roberts e Hugh Grant. Já como ponto omisso, é uma pena que a obra não pincela ao menos o Cinema nos tempos atuais, com o advento dos streamings que sequestraram consideravelmente o público que em outrora ia às salas de cinema. Há referências sobre a televisão, mas não sobre o impacto devastador que a internet teve para esta arte.
“Loucos por Cinema!” pode não ser uma produção redonda e memorável, mas certamente é uma visão particular e metalinguística sobre o cinema como vetor de transformação e de marco na vida das pessoas. Viva o cinema!