“Furiosa: Uma Saga Mad Max” : George Miller condensa sua heroína em jornada impactante de vingança e propósito | 2024
Sempre houve, há e sempre haverá guerra

O cinema distópico é um fenômeno que, se hoje corre, o faz porque cineastas como George Miller o seguraram pela mão e o ensinaram a andar muitas décadas atrás. Miller e seu Max Rockatansky se tornaram ícones da indústria do entretenimento com suas acrobacias raivosas em um mundo desfigurado ordenado por extremos, e a curva de despirocagem deu uma guinada enorme quando “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015) foi lançado, apresentando uma versão ainda mais cyberpunk daquele cenário distópico visto nos filmes estrelados por Mel Gibson.
Grande parte do sucesso inesperado de “Estrada da Fúria” está atrelado a uma abstinência de filmes pirotécnicos e surtados, engajados no próprio devaneio e consumidores do absurdo daquilo que eles mesmos propõem. Quando chegou aos cinemas, nove anos antes de “Furiosa” ser finalmente lançado, o mundo testemunhou as novas extravagâncias de George Miller e o aplaudiu como o visionário que é. Contudo, confesso que nunca fui fã de “Estrada da Fúria” e sempre o achei superestimado – o que me causou um enorme espanto com as tantas indicações ao Oscar na edição seguinte. Num geral, o filme sempre me soou vazio e gratuito, como se quisesse me distrair com explosões e uma guitarra flamejante para não deixar que eu percebesse o quão rasa era a trama.
Quero deixar claro que não há problema em filmar a ação pela ação apenas. Muitos ótimos filmes foram concebidos assim, e os defensores de “Estrada da Fúria” argumentam em favor do mesmo dizendo que o filme se basta ainda que forem ignoradas as camadas sociopolíticas. Minha encrenca com o filme não é essa, mas sim a falta de conexão entre os protagonistas e o lado de cá da tela. Não me foi possível sentir suas dores, experienciar seus medos e nem tampouco temer seus riscos mortais. Contudo, o que faltou de profundidade no filme anterior agora sobra neste novo, que é um prelúdio ao filme estrelado por Tom Hardy e Charlize Theron.
Estou me estendendo em falar de “Estrada da Fúria” por dois motivos: 1 – é impossível desvincular “Furiosa” do filme que lhe deu origem, e 2 – “Furiosa” conseguiu o primor, para a minha total surpresa, de melhorar consideravelmente “Estrada da Fúria” e imprimir a ele a profundidade que lhe faltava. A experiência de assistir “Furiosa” me foi similar à de assistir “Planeta dos Macacos: O Confronto” (2014) pela primeira vez. Mesmo sabendo o desfecho por conta dos eventos posteriores já apresentados na franquia, flagrei a mim mesmo torcendo pela consumação de algumas irrealidades – e o fiz porque o filme me tornou crível que era possível e me levou a esquecer por alguns instantes do futuro já estabelecido.
O roteiro co-escrito pelo próprio Miller com Nico Lathouris apresenta uma trama muito mais bem estruturada e elaborada em complexidades e dilemas. Temos aqui algumas das melhores linhas de diálogos do ano, com interpretações intensas e hipnóticas de Anya Taylor-Joy, Chris Hemsworth, Tom Burke, Alyla Browne e Charlee Fraser, cuja ferocidade implícita no olhar é tão similar à de Taylor-Joy que ambas poderiam ser facilmente confundidas – e isso fica nítido em uma cena, na primeira parte do filme, onde ela coloca um capacete/máscara de caveira e somente os olhos ficam à mostra. Muito do filme é comunicado dessa forma, com olhares pesados que são ao mesmo tempo seguros e receosos.
O elenco amplifica a escala do espetáculo agregando esses valores não verbais intensos e precisos, e Anya Taylor-Joy fez valer cada minuto de aplauso, como quando foi ovacionada durante o Festival de Cannes. A afirmação de que este é o melhor filme da franquia um total inequívoco, embora a maioria esmagadora dos devotos do filme de 2015 discorde. Claro, existem alguns pontos aprimoráveis (sim, CGI, estou falando de você), mas é cabível interpretar a aura surreal e fantasiosa como algo transcendente à técnica e agregada propositalmente ao roteiro para evocar estranhamentos estéticos.
Em sua primeira hora, o filme apresenta a face infantil de uma Furiosa que viria a se tornar a mulher indomável que conhecemos, e isso não só estrutura toda a cadência emocional do longa como também justifica sentimentalmente toda a jornada da Furiosa em sua odisseia posterior de retorno ao lar. É um filme intenso como deve ser, insano como deve ser, e incrivelmente empático em sua abordagem a temas delicados. Que as guerras nesse mundo fictício perdurem e que mais filmes assim sejam feitos! Afinal, depois do assombramento colossal deixado por esse filme, é justo dizer que quanto mais Furiosa tivermos, melhor.