“Entre Montanhas”: longa eletrizante cativa e emociona com mistura de gêneros e ambição humana desmedida | 2025

O roteiro de Zach Dean para “Entre Montanhas” é uma colcha de retalhos vasta, que costura romance, ficção, terror e ação, que tinha uma grande chance de dar errado, mas acabou por dar muito certo. Drasa e Levi são dois agentes secretos, atiradores de elite escalados por uma empresa privada para uma missão super misteriosa: durante um ano vigiar um desfiladeiro localizado em uma área remota e desconhecida do planeta. Eles moram cada um de um lado da gigante fenda rochosa, e tem que impedir que alguém (ou algo) sinistro e ameaçador saia de lá. Apesar de serem terminantemente proibidos de se relacionar, a solidão pesa e eles começam a se comunicar enquanto vigiam o inimigo sombrio, e aí começa um belo romance.
O início da trama é um pouco lento, mas engrena quando os protagonistas começam a se conhecer e seus perfis psicológicos são aprofundados, eles vão pro abismo e o apocalipse toma conta daquele trabalho falsamente pacato. O diretor Scott Derrickson (“O Telefone Preto”, “A Entidade”, “O Exorcismo de Emily Rose”) conduz a narrativa com competência e passeia com habilidade entre os gêneros, há ficção no mistério assustador que habita as profundezas do abismo, ação insana na missão, entre granadas, cabos e um arsenal bélico poderoso; e suspense na descoberta do segredo que lhes foi escondido. Tudo muito bem alinhado com uma trilha sonora incrível que vai de Ramones, Twisted Sister, Yeah Yeah Yeahs, Jack White a um cover de Bob Dylan por Ed Sheeran.
Porém, o que dá o tom do filme é mesmo o romance de Drasa e Levi. Milles Teller e Anya Taylor-Joy tem uma química deliciosa como o casal de atiradores solitários que antes dessa missão não tinham nada a perder, as cenas do namoro são de uma delicadeza ímpar. A relação entre eles se desenvolve aos poucos: eles se conhecem à distância através de binóculos potentes e com diálogos em cartazes escritos à mão, se admiram mutualmente pelas suas habilidades profissionais, por suas histórias de vida e cicatrizes. O afeto, cuidado e atração crescem sem eles ao menos se tocarem; assim como cresce a expectativa para que sejam felizes.
“Entre Montanhas” faz uma ótima analogia do poema de T.S. Elliot “Os Homens Ocos”, com os poderosos que não tem limites pra ambição e querem a qualquer custo ter armas letais pra dominar o mundo, nem que pra isso a destruição da humanidade seja um risco. “Os Homens Ocos” nos remete a pessoas moralmente vazias e sem valores sólidos, à corporação inescrupulosa que leva Drasa e Levi ao Inferno de Dante, o reino morto ao qual eles tem que sobreviver para viver o seu amor.