“Deixe-me”: Drama sensível foca na jornada de uma mulher madura conciliando responsabilidades e sua liberdade sexual | 2024

Brilhantemente filmado e com uma sensibilidade ímpar, o diretor estreante Maxime Rappaz consegue abordar delicadas relações humanas com domínio ao contar a história de Claudine (Jeanne Balibar), uma costureira de seus 50 anos que vive em um pequeno vilarejo nos Alpes Suíços com seu filho Baptiste (Pierre-Antoine Dubey). Baptiste é um adulto com deficiência física e intelectual, fato desafiador que faz Claudine ter que cuidar dele sozinha durante 24 horas, já que podemos inferir que o pai a abandonou. O único momento de “respiro” de sua vida atribulada são suas terças-feiras, dia em que paga para a vizinha cuidar de Baptiste e o dia em que visita um hotel local para se envolver sexualmente com hóspedes de passagem pela região.
O ritual de Claudine é sempre cirúrgico, com a ajuda do recepcionista, identifica homens que estão hospedados de um a dois dias no estabelecimento e se aproxima deles na sala do café da manhã. A dinâmica calculada, pautada por total desapego de Claudine por esses homens, se vê comprometida quando um de seus alvos, Michael (Thomas Sarbacher), decide prolongar sua estada na região para investir em um possível relacionamento com ela. Quando se vê desenvolvendo sentimentos por Michael, Claudine começa a passar por um dilema: investir em uma paixão intensa com ele, abrindo mão de suas responsabilidades com Baptiste, ou descartar aquela relação em prol da manutenção do seu sistemático estilo de vida com seu filho.
Este fio narrativo, composto por relações humanas frágeis e sensíveis, encontra sofisticação tanto na direção precisa de Rappaz, no roteiro co-escrito por ele, Florence Seyvos e Marion Vernoux, bem como nas atuações marcantes do elenco, liderado com força acachapante por Jeanne Balibar. A atriz mergulha em uma composição corajosa de uma mulher belíssima, que exala classe e sensualidade, mas que também transmite diversos sentimentos só com seu olhar sereno e angustiante ao mesmo tempo. Sua performance tridimensional reflete o talento de Balibar, já que ela precisa conciliar cenas de ternura como a mãe de Baptiste em seu dia a dia modesto como costureira, bem como a persona sensual e provocante que aborda homens anônimos em seu ritual semanal no hotel. É uma atuação brilhante.
Com ritmo pautado por diálogos com pausas, olhares e intenções, “Deixe-me” é uma obra que sabe conduzir e prender a atenção do espectador com uma premissa simples de relações humanas, mas de uma profundidade e franqueza desconcertantes. É um reflexo extremamente promissor do talento de Maxime Rappaz, especialmente considerando que este é seu debut em um longa-metragem.
O filme teve algum reconhecimento em festivais como o Swiss Film Prize e o Vancouver International Film Festival, mas merecia ter maior repercussão na rota de festivais e premiações do ano passado, especialmente nas categorias de direção, roteiro e atriz. Fica a oportunidade do público brasileiro de enfim conferir esta poderosa narrativa e construção de personagens onde deve ser realmente apreciada: na tela grande.