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“Branca de Neve”: versão reimaginada do clássico de 1937 evoca pseudo-insurgência e se torna refém do próprio discurso | 2025

Você mente!

Você já deve ter tido contato com o termo “cultura woke” em algum momento. Caso não a conheça, fica aqui um breve conceito tirado de uma página online: Em 2019, Brendan O’Neill, editor da revista Spiked, descreveu os indivíduos que promovem a política woke como pessoas que tendem a ser identitárias, censuradoras e puritanas em seu pensamento ou um “guerreiro cultural que não consegue aceitar o fato de que existem pessoas no mundo que discordam dele”. Em resumo, uma galera chata pra caramba que acha que a fantasia que eles idealizam sobrepõe a realidade das coisas.

Como um sinal dos tempos, termos como “quem lacra não lucra”, adotados principalmente pela extrema direita nesses últimos anos em resposta ao avanço das pautas woke na cultura popular, têm se tornado cada vez mais certeiros. O mercado está dando a volta e abandonando essa legenda que, ao meu ver, tem causado mais danos sociais (a cultura do cancelamento, por exemplo, é fruto desse movimento) do que abarcado sua proposta inicial de inclusão e observância aos pouco representados. Filmes grandiosos têm tido repercussão negativa e fracassado em bilheteria, confirmando o declínio da ideologia perante o mundo dos boletos e impostos cotidianos. E “Branca de Neve”, novo remake live action da Disney em seu projeto mercenário de fazer uso de títulos consagrados para arrancar mais dinheiro do povo sem precisar exercitar a criatividade, é a evidência definitiva do esgotamento que a cultura woke alcançou.

O filme de Marc Webb está rodeado de polêmicas desde o seu anúncio. A notícia de que Rachel Zegler seria a protagonista e Gal Gadot seria a rainha má gerou uma péssima repercussão imediata, e as coisas só pioraram quando vieram a público as notícias de que discussões envolvendo as posições políticas divergentes entre ambas sobre o conflito entre Hamas e Israel estariam aquecendo os ânimos nos bastidores, além da declaração de Peter Dinklage sobre o uso potencialmente pejorativo de anões na história, que teria tirado o emprego de 7 artistas que poderiam performar o núcleo gracioso dos pequenos coadjuvantes após o estúdio decidir adotar esse equivocado “politicamente correto” que é uma faca de dois gumes. Como se não bastasse tudo isso, Zegler ainda reforçou, em uma entrevista, que o filme é uma ressonância do nosso tempo e que a princesa não precisaria ser salva por um príncipe stalker.

Tendo isso em vista, o público amante da primeira animação longa-metragem da história percebeu os danos da ideologia vigente. Claro, algumas questões merecem e precisam ser problematizadas no âmbito social como um todo, mas a coisa ficou tão fora de controle que aquilo que outrora era lírico e fantástico, como um beijo de despedida na amada que morreu (coisa super comum em velórios, inclusive), passou a ser problematizado e criminoso. Como resposta, a aversão ao novo filme, que prometia deturpar os encantos de sua obra “original” (em grandes aspas, já que o primeiro registro é dos irmãos Grimm), foi a pior possível. O filme se tornou alvo de ódio mais de um ano antes de seu lançamento. E a grande questão, agora que o filme finalmente chegou ao mercado, é: vale a pena dedicar tempo e dinheiro para assisti-lo?

Uma das coisas mais legais que aprendi nos debates dentro do Papo de Cinemateca foi a percepção que o grande Rafael Ferraz compartilhou e que adotei para mim. Ela compreende que a obra clássica não deixa de existir só porque fizeram uma nova versão, e que nenhum filme precisa de um motivo concreto para existir ou não. Confesso que fiquei tentado a afirmar que nada além do dinheiro fácil justificaria a existência desse novo filme, mas o rememorar daquele aprendizado me conteve e me levou a uma reformulação que é a seguinte: “Branca de Neve” nada mais é do que um reflexo do próprio tempo, para o bem e para o mal. É um filme que se vende como idealista e revolucionário, fazendo-se insurgente contra uma opressão fantasmagórica criada por ele mesmo, mas que não consegue ser mais do que só um produto tedioso ao melhor estilo “mais do mesmo” dessa dita cultura woke, que está agora recebendo suas últimas pás de cal da temporada, antes de seu provável retorno daqui algumas décadas. Então, respondendo à pergunta do parágrafo anterior, digo que deve-se considerar o valor do ingresso com cautela, porque o filme em questão não funcionaria bem nem mesmo se fosse uma obra original. Recomendo, portanto, analisar a cartela de filmes em cartaz para uma escolha mais satisfatória.

Não estou fazendo campanha contra o filme, não me entenda mal. Se quiser assisti-lo, vá e assista! Estou defendendo o seguinte: acredito que ele fará algum dinheiro e alcançará seus tantos milhões, mas mesmo que por algum milagre ele atinja um bilhão de dólares em bilheteria, esse número não representará a qualidade do filme como positiva; muita gente vai assistir para poder criticar com propriedade, pra falar mal com motivos justos, ou no mínimo para rir do desastre – ainda mais tendo como exemplo o Brasil, já que somos especialistas em dar palco pra maluco e enaltecer obras que rivalizam à boa qualidade (vide “Caneta Azul”). Se você for vê-lo e gostar do que lhe for apresentado, sinta-se feliz e invejado. Muita gente gostaria de ter essa percepção da obra ao invés da sensação cretina de ter jogado dinheiro no lixo. O filme tem lá suas (pouquíssimas) qualidades, e se você focar nelas e ignorar todo o resto então talvez consiga apreciar o passeio.

O uso questionável de anões em CGI (que cavam fundo no vale da estranheza e o enlarguecem, mesmo cativando vez aqui e acolá) é o menor dos problemas. A escalação de Zegler é Gadot se mostra ainda mais errática quando desempenhada em cena; ambas grandes atrizes, mas em papéis que não exploram muito de suas qualidades. Zegler, pelo menos, aqui canta e se esguela lindamente mesmo nas canções menos inspiradas. Desse modo, concluo que “Branca de Neve” traz atuações que, embora exageradas e recheadas de estereótipos, não escapam da superficialidade. A trama é tão rasa quanto uma poça d’água após uma garoa de verão, dessas que evaporam rápido e logo desaparecem. Uma revolução que passa longe de ser revolucionária, e que é idêntica às tantas outras vistas de quinze anos para cá, quando a cultura woke começou a dominar de fato. Como resultado, temos um filme vazio, sem novidade, preso a um discurso que ele mesmo parece se envergonhar de seguir. O todo só não é mais cafona porque o filme não se estende para além de duas horas. Um desperdício enorme de um filme que poderia ser tão belo e grandioso quanto aquele a que se baseia, mas que prefere se vender às demandas atuais (que agora se sufocam em suas próprias artimanhas) em nome do lucro da vez. Lamentável. Que a Disney aprenda alguma coisa com mais esse erro.

Vinícius Martins

Cinéfilo, colecionador, leitor, escritor, futuro diretor de cinema, chocólatra, fã de literatura inglesa, viciado em trilhas sonoras e defensor assíduo de que foi Han Solo quem atirou primeiro.

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