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“Milton Bituca Nascimento”: documentário segue a última turnê de Milton Nascimento e sua despedida dos palcos l 2025

A despedida nunca é apenas um fim. Diante da imortalidade, o adeus se torna um rito, não um ponto final. Essa é a ideia que norteia “Milton Bituca Nascimento”, documentário dirigido por Flávia Moraes que acompanha a turnê de despedida de Milton Nascimento. Mais do que um registro, o filme transforma o encerramento de um ciclo em celebração, reafirmando a grandiosidade de um artista cuja obra transcende o tempo e as fronteiras.

Para essa missão, a turnê que passou pela Europa, Estados Unidos e Brasil se revela um recorte preciso. O documentário abre sua narrativa explorando o reconhecimento internacional de Milton Nascimento e sua sofisticação técnica. Sob a narração de Fernanda Montenegro, outra de nossas eternas, somos lembrados de que Bituca recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Berklee College of Music, uma das instituições mais prestigiadas do mundo. A mesma honraria foi concedida a lendas como Stevie Wonder, Quincy Jones, Paul Simon, Aretha Franklin, Diana Ross, Sting e John Williams. É curioso que essa jornada comece com um olhar voltado para fora. Mas talvez, dado o histórico de negligência cultural no Brasil, seja um gesto necessário – um lembrete de sua grandiosidade.

Nessa primeira parte, o documentário também se detém em aspectos técnicos: a singularidade de sua voz, o apuro interpretativo, a espontaneidade que o define e até mesmo sua associação ao jazz nos Estados Unidos. Essa relação faz sentido – o jazz é o território da liberdade, do improviso, do virtuosismo sensorial. É um conceito amplo, mas ainda assim insuficiente para traduzi-lo. No fim, conclui-se que Milton Nascimento é, sim, jazz – mas não apenas. Bituca escapa a definições, permanece inclassificável.

Ao chegar no Brasil, o documentário assume um tom mais íntimo. No entanto, não se trata de uma cinebiografia. As referências ao passado surgem pontualmente, funcionando como complemento ao presente. Destacam-se momentos em que suas composições carregam ecos de sua trajetória, como “Maria Maria”, criada durante uma viagem de trem entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Com a magia que só Milton seria capaz de traduzir, a musicalidade da canção parece carregar o ritmo dos trilhos, transformando memória e ambiente em melodia.

Embora permeado de emoção, o documentário evita qualquer apelo à sentimentalismo. A força está na música e nas reações que ela desperta. Seguindo uma abordagem clássica, centrada em depoimentos, não há espaço para melancolia – pelo contrário, trata-se de uma celebração. Com maestria, Flávia Moraes não imprime saudade, mas exalta a voz do presente e a projeta para a eternidade.

Rafa Ferraz

Engenheiro de profissão e cinéfilo de nascimento. Apaixonado por literatura e filosofia, criei o perfil ‘Isso Não é Uma Critica’ para compartilhar esse sentimento maravilhoso que é pensar o cinema e tudo que ele proporciona.

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